segunda-feira, 12 de junho de 2017

BAIXA: MAIS UM HISTÓRICO CASTELO QUE CAI







A histórica Casa do Castelo - Editora, na Rua da Sofia, mais que certo fechou hoje. Depois de ter encerrado a Livraria 115, na Praça 8 de Maio, em 2012, vai agora o que resta da sociedade: o armazém na Palheira e a loja na Rua da Moeda, esta dedicada a artigos mais virados para “o faça você mesmo”, em bricolage, tintas e pincéis para artes decorativas. Ou seja, dois estabelecimentos vão desaparecer na Baixa e outro armazém na periferia. Falei na sexta-feira com um responsável ligado a esta antiga livraria de Coimbra que me disse que encerrariam por estes dias. Hoje, segunda-feira, estava encerrada. Conclui que o processo já está em curso. Mas pode acontecer não ser assim e ainda abrir temporariamente durante mais alguns dias próximos. O que sei, pelo que me foi dito, é que o fecho deste popular estabelecimento é irreversível.
Diz quem sabe, que esta reconhecida empresa situada na Baixa da cidade chegou a ter 21 funcionários, e a facturar um milhão de euros por mês. O que aconteceu? Poderá ser uma das interrogativas? Uma vez que são vários os factores que contribuíram para o seu declínio, correndo o risco de estar a ser injusto, apontava apenas alguns: a queda do livro, enquanto instrumento de conhecimento através da leitura em papel; a selva em que se transformou este mercado, por um lado, com as grandes editoras a centralizarem a distribuição, por outro, com o livro a ser vendido em qualquer lugar; e por outro ainda, a desertificação do Centro Histórico, com uma procura muito residual, e as políticas de abandono que se verificam por parte da Câmara Municipal para com o comércio local, sobretudo a partir de 1995.

E A FEIRA CULTURAL É UM ESTRONDOSO ÊXITO...

Entretanto nos jornais locais e nacionais lemos que a edição deste ano da Feira Cultural de Coimbra, sucessora da Feira do Livro, que encerrou hoje depois de dez dias em actividade, foi um sucesso gigantesco. Citando o Diário de Notícias, “do programa do certame destaque também, designadamente, para o evento '24 horas culturais', em 09 e 10 de junho, evento que leva ao Parque Verde "manifestações culturais e recreativas ininterruptas", durante o qual terá lugar a iniciativa 'Acampar com histórias', organizada em colaboração com a Associação Portuguesa de Editores e Livreiros (APEL). (…) "Projeto pluridisciplinar que a Câmara Municipal de Coimbra criou para todos, reflexo de uma política cultural integradora e diversificada, expressa no cruzamento de áreas que vão desde a literatura, ao artesanato, à gastronomia, à música, às artes plásticas, à cultura e criatividade e à animação", a Feira Cultural de Coimbra conta, este ano, com 196 representações, equivalentes a mais 19 instituições do que no ano passado e mais 38 do que em 2015, sublinha a autarquia.
(…) A área do livro foi uma das que mais cresceu" entre 2016 e este ano (aumentou de 51 para 57 representações), respondendo assim ao principal objetivo do evento que é "valorizar o livro e a leitura", sublinhou Manuel Machado,  referindo que a gastronomia e o artesanato também aumentam as suas representações. "Ainda há quem pense que Coimbra não é uma cidade cosmopolita", afirmou o presidente da Câmara, considerando que o modelo adotado pela autarquia, há três anos, e a resposta de operadores, de agentes culturais e da população em geral contraria aquela ideia, que é errada. (…) Para a edição deste ano, a Câmara de Coimbra investe cerca de 170 mil euros, mais perto de 40 mil euros que o ano passado.

MAS A FEIRA É MESMO UM SUCESSO? PARA QUEM?

O que os jornais não dizem é que esta alegoria, do ponto de vista económico, é um desastre e não traz nada de bom para Baixa. Pelo contrário ao apregoado aos sete ventos de andarilho, prejudica a maioria dos operadores que por cá, durante o ano inteiro, lutam para sobreviver. O que os meios de informação noticiosos não escrevem é que este certame é o paradigma do tiro-no-pé. Que à custa do erário público está-se a fazer a festa, a deitar os foguetes e a deixar a apanha das canas para os contribuintes. É pura gestão danosa -no sentido de que, uma vez que não há retorno no investimento, tendo por objecto o festivaleiro vazio, provoca dano nas públicas finanças locais. Ficou confuso? Vou explicar melhor:
Do total de 196 expositores, uns do concelho e outros de várias partes do país, nenhum deles pagou um cêntimo para vender os seus produtos em Coimbra. E mais: quem se deslocou a mais de 60 quilómetros da cidade para estar presente, alegadamente, pelos serviços camarários foi-lhe pago alojamento.
Já está aperceber melhor? Então vou continuar. Isto é, gastando 174 mil euros à custa do dinheiro que é de todos, a Câmara Municipal de Coimbra pagou a forasteiros para vir vender na nossa terra sem levar em conta que há muitos comerciantes dos ramos ali representados que se fossem convidados a preencher os lugares, mais que certo, estariam presentes. Acontece que, tanto quanto julgo saber, os convites aos locais foram poucos e direccionados apenas a alguns. Por conseguinte, com uma lógica completamente virada para encher o olho da populaça, sem olhar a custos, está-se a promover a concorrência desleal e selvagem a todos quantos, estabelecidos com lojas ou “vendedores ambulantes”, exercem a sua actividade comercial -e até industrial.

O QUE É DADO NÃO É AGRADECIDO

O que é mais estranho, ou nem tanto, é que, sendo tudo gratuito, quem esteve a vender deveria estar muito satisfeito. E ficaram? Claro que não, por que, diz o povo, o que é oferecido sem esforço de merecimento é sempre pouco e não é agradecido.
Quem leu o Diário de Coimbra (DC) de ontem e o Diário as Beiras (DB) de hoje recebe uma surpresa. No DC, referindo uma banca de Seia, que “vende sandes de presunto entre outras iguarias para confortar o estômago até ao almoço”, “foi um pouco mais caldo do que no ano passado (…) dando a entender uma menor afluência de visitantes à feira deste ano.
Prosseguindo com o DC em outras declarações de vendedores, “No que toca à organização, elogia a distribuição de espaços de restauração ao longo do parque e, numa próxima edição, sugere a criação de sombras para os stands que não beneficiam da natural sombra das árvores.
Outro expositor vindo de Castelo Branco desabafou o seguinte: “lamenta não ter conseguido montar a sua esplanada e teve o azar de ver a sua “barraquinha” escondida por outras. A fazer contas à vida, dificilmente regressará para o ano.
Passando para a página 7 do DB, encimada com a declaração “Mais uma vez uma edição de sucesso”, diz a vereadora”, entre vários, podemos ler um comentário de um alfarrabista de Braga: “Achei a feira fraquita e ficou aquém das expectativas. Muito público, mas poucas vendas. Isto promete, estava bem organizado, tirando o facto de a luz estar sempre a ir abaixo.
Outra crítica de um senhora vendedora de artesanato, vinda de Viana do Castelo, “Já venho desde a primeira edição da feira. Este ano, acho que está pior do que o ano passado. A feira foi um bocadinho adiantada no tempo, o que terá afastado algumas pessoas. Noto que há menor poder de compra, pelo menos entre os visitantes portugueses.“

TANTO, TANTO SUCESSO, DIZ VEREADORA

Continuando a citar o DB, “Para Carina Gomes, vereadora da Cultura da Câmara Municipal de Coimbra, esta “é mais uma vez uma edição de sucesso. Estamos na 4.ª edição da Feira Cultural e creio que a satisfação de expositores e visitantes tem vindo a aumentar ao longo das edições”. A responsável lembra que esta “foi uma aposta que assumimos, de transformar a velha Feira do Livro, que entendemos estava a definhar e não tinha condições para continuar. Decidimos implementar este novo modelo, que é uma feira pluridisciplinar, com vários atractivos”. Estamos perfeitamente convictos que este é o modelo certo, que tem vindo a funcionar cada vez melhor em Coimbra”, acrescenta.

COIMBRA, A PRIMEIRA CAPITAL

Já escrevi muito sobre este assunto. Tenho para mim que há actividades fixas e ambulantes, sobretudo ramos e profissões em desaparecimento, que devem (com urgência) merecer uma atenção especial por parte do Governo. São ícones de uma cidade. No caso de lojas antigas, deveria levar-se à prática uma ideia do fim dos anos de 1980 que era a protecção do “estabelecimento de tradição”. No caso de vendedores de feiras, como é o caso de algum artesanato -não todo, não se pode generalizar-, a mesma coisa. Mas há um detalhe importante: esta classificação deve ser rigorosa e feita por uma independente entidade pública sediada em Lisboa. Isto para evitar o habitual olhar enviesado local. Às autarquias apenas deveria calhar o papel de parceiro interessado, mediador na ajuda, e proporem a classificação. Tomando a não discriminação, para os contemplados, como direito, haveria subsídio através do IEFP, Instituto de Emprego e Formação Profissional, como obrigação, no caso dos criadores de artigos feitos à mão, deveriam estar obrigados a representar um determinado número de certames no país, no caso de estabelecimentos imóveis, para além de obrigatoriamente se manterem abertos, deveriam ter acoplado a prestação pública ao serviço da cidade, vila ou aldeia.

MAS A CÂMARA DE COIMBRA NÃO ESTÁ A ANTECIPAR-SE?

Já todos sabemos que, certamente pela vigília da Universidade, a Lusa Atenas anda sempre à frente. Porém, sempre mal. Num certo chico-espertismo, sem levar em conta que para beneficiar uma minoria prejudica a maioria. Por exemplo, no caso de “estabelecimento com tradição”, tanto quanto julgo saber, já há pelo menos um contemplado -sublinho que, pelo bom trabalho, merece a distinção. O mal até nem viria ao mundo se tudo fosse feito às claras. O problema é que não é. É tudo feito no segredo dos deuses e por simpatias políticas. E, é claro, para quem sabe de certas coisas e pensa, dá um certo enjoo, uma certa repulsa. É certo também que há outros que recebem às claras, mas destes, já que serão objecto de fiscalização pela oposição no executivo, pouco há a dizer ou a remediar. É o já que está (mesmo mal), e já que está, deixa estar!
Portanto, voltando à Feira Cultural de Coimbra, se for levado como certo o que escrevi, a Câmara Municipal de Coimbra (CMC), ao pagar alojamento a quem vem de longe, sobretudo no artesanato, e dar-lhe espaço para vender os produtos gratuitamente na cidade, no fundo, está antecipar-se ao Governo, isto é, aparentemente, está a fazer o que deveria ser política governamental. Certo? Não, errado. Uma edilidade é sempre de âmbito concelhio, local, e não nacional. Uma autarquia, através de políticas económicas ou sociais, não se pode nunca substituir ao Governo. Por que se o fizer, como é o caso em análise, corre facilmente o risco de discriminar negativamente os autóctones. Cada macaco em seu galho. Repare-se que se fizesse uma feira direccionada aos produtores e comerciantes do concelho ainda vá que não vá -embora, repito, um espaço público onde se faz negócio não deve ser nunca gratuito.
E de tal maneira é assim que, por exemplo, os “vendedores ambulantes” (fixos) estabelecidos na Praça do Comércio, com uma licença provisória, pagam cerca de 12 euros por mês para ali permanecerem a tentar vender alguma coisa -é também certo que, pelo abandono a que estiveram votados nos últimos 16 anos, aos poucos vão desaparecendo e, digo eu, muitos deles já nem pagarão. E a CMC, nas gentes que a comanda, que nem serão maus de todo completamente, e sabendo que dando a mão aos infelizes terão sempre um lugar no Céu, sabem e sentem que cobrar àquelas pessoas a laborar em condições miseráveis é uma tremenda injustiça, digo eu outra vez, vão fazendo de conta que tudo está bem.
E a corroborar o meu argumento de que na Baixa, para estabelecimentos fixos, se procede de modo diferenciado, no ano passado os hoteleiros com espaço público ocupado com esplanadas, até ali gratuito, sem aviso prévio, foram intimados a pagar balúrdios.
Já com os lojistas comerciais -por que, seguindo a doutrina marxista-leninista, representam o Grande Capital- o procedimento segue a mesma bitola da hotelaria. Estes, numa espécie de saco de boxe, sem levar em conta que a maioria está falida, têm de pagar tudo com língua de palmo -que é para poder distribuir pelos outros. Alguém tem de ser sacrificado neste mundo de loucos.

COIMBRA, CAPITAL DO EXTERMÍNIO DO COMÉRCIO LOCAL

Certamente que nenhum expositor que se queira instalar na Feira de Cantanhede estará à espera de ser à borla. Quem vende em feiras de velharias em todo o país, sabe muito bem que os espaços cedidos são pagos. E bem pagos, por exemplo em Aveiro os preços, consoante a área ocupada, podem ultrapassar os 200 euros.
Então, seguindo este raciocínio, por que raio é que em Coimbra, com três certames mensais, nada se paga?
Por que é que, mensalmente, se realiza uma Feira de Artesanato Urbano numa rua onde proliferam lojas deste ramo com rendas elevadíssimas e os que vendem na via pública ninguém paga um cêntimo? Porquê? A propósito, fez algum sentido ontem realizar esta feira com outra a decorrer  a escassa centena de metros, no parque da cidade? Claro que as respostas já as dei em cima: a edilidade está a espalhar o bem... olhando a quem. Ou seja, num egoísmo exacerbado, fazendo a festa aproveitando-se da fragilidade dos operadores e à custa de dinheiros públicos, procurando as palmas dos eleitores, sem pudor em humilhar os que cá trabalham, sem escrúpulos nem mágoa, vai destruindo o tecido económico da Baixa.
Escrevi tanto que até me esqueci: o que tem tudo isto a ver com o encerramento da Casa do Castelo - Editora?

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