quarta-feira, 8 de março de 2017

O ESTRANHO CASO DA MULHER ACAMPADA






Há cerca de um mês que uma mulher acampou num banco público, de rua, em frente à Igreja São Tiago, na Praça do Comércio. Durante o dia, acompanhada de mantas e casacos de lã doados pela vizinhança, permanece sentada a fazer malha e à noite dorme no patim superior, por baixo da arcada, da vetusta igreja erigida no século XII.
Há cerca de três semanas alguns comerciantes circundantes, preocupados com a situação de acampamento voluntário, contaram-me o que se estava a passar. Disseram-me que a senhora já tinha sido identificada por dois agente da Polícia Judiciária e que, em face da recusa da mulher em sair dali, não era possível fazer mais nada por parte daquela polícia. Prometi dar conhecimento ao Gabinete de Acção Social e Família, da Câmara Municipal de Coimbra. Enviei um e-mail em 18 de Fevereiro, sexta-feira, e logo na segunda-feira seguinte recebi a comunicação: Face às informações que nos prestou, foi possível de imediato fazer deslocar ao local a Dra. Joana Nogueira, técnica superior desta autarquia (Divisão de Ação Social). Apesar do estado de saúde da mulher não permitir uma abordagem mais pessoal (aparenta um forte distúrbio mental), foi possível à Dra. Joana apurar, através de testemunhos vários, que a senhora se encontra a ser alimentada pela Associação Cozinhas Económicas, ou seja já estava sinalizada. Apurou ainda que os pais, pontualmente, vêm ver como se encontra, tendo inclusive pedido para não lhe darem dinheiro.
Esta noite irão ao local técnicos, para nova avaliação e nos próximos dias a Câmara Municipal de Coimbra, continuará atenta a esta situação.”

O TEMPO PASSOU E...

Segundo o depoimento de quem conversou comigo, nos primeiros dias de “acampamento” não falava com quem quer que fosse e, consequentemente, não aceitava qualquer espécie de ajuda. Os vizinhos temiam que estivesse a passar fome por opção. Depois, progressivamente, tornou-se mais simpática e, embora muito selectiva, actualmente já troca umas palavras com alguns. Curiosamente, continua a não aceitar nada de desconhecidos mas, volta e meia, lá "crava" umas moedas para ir almoçar à Cozinha Económica, foi dito assim mesmo.

TENTAR A APROXIMAÇÃO

Quem, durante o dia, passar na Praça do Comércio, em frente à Igreja de São Tiago, apercebe-se de um banco cheio de roupas em desalinho e uma formosa mulher, com óculos escuros, parece tricotar qualquer coisa.
Hoje, pedindo ajuda a um mediador da sua relação, perguntei como podia chegar à comunicação. Enquanto falava com o nosso amigo comum, de vez em quando ouvíamos umas risotas soltas provindas da estranha mulher sozinha. Aproximei-me e, devagarinho, consegui entabular uma curta conversa com ela. Com o argumento de que gostava de escrever a sua história aqui no blogue, fiquei a saber que se chama Sónia, “que está ali muito bem e que, por enquanto não o quer fazer”. Agradeceu a minha atenção em ter falado com ela -”este é o princípio que deve reger um jornalista”, disse. Ao que parece a Sónia frequentou a Universidade e até ao 4º ano de jornalismo.

MAS, AFINAL, QUEM É A ENIGMÁTICA MULHER?

Com recurso à memória, lembrei-me que em Janeiro, último, o Diário as Beiras (DB) tinha publicado em primeira página a foto de uma linda mulher de olhos verdes que estava desaparecida. Fazer a relação nexo-causal foi o que me levou a concluir que se trata da mesma pessoa. Citando o DB de 24 de Janeiro, “Ninguém sabe de Sónia Monteiro desde Quinta-feira”. Prosseguindo a notícia de primeira página, “A mulher de 36 anos saiu de casa dos pais, onde vive, às 10h00 de quinta-feira. Terá sido avistada na tarde desse dia em Coimbra, mas desde então nunca mais conseguiram falar com ela. Tem 1,60 metros de altura, cabelo castanho e sofre de “problemas psíquicos”. A GNR já está a investigar”. E no caderno interior continuava, “Sónia Monteiro, de 36 anos, está desaparecida desde quinta-feira. É natural de Alfarelos (concelho de Soure), onde vivia com a família e “sofre de problemas psíquicos”, revelou ao DB fonte da GNR de Coimbra. (…)”.

VAMOS LÁ VER SE A GENTE PERCEBE...

Sónia Monteiro declaradamente sofre de “problemas psíquicos”. Quem o afirma é um documento emanado da Câmara Municipal de Coimbra e é o DB citando a GNR. Antes de continuar vamos ver o que quer dizer “problemas psíquicos”. Recorrendo à Wikipédia, “Os termos transtorno, distúrbio e doença combinam-se aos termos mental, psíquico e psiquiátrico para descrever qualquer anormalidade, sofrimento ou comprometimento de ordem psicológica e/ou mental. Os transtornos mentais são um campo de investigação interdisciplinar que envolvem áreas como a psicologia, a psiquiatria e a neurologia”.

Ora, pelo descrito, levando como verdade que Sónia Monteiro sofre de anomalia psíquica, logo, por inerência, Sónia não estará plena das suas faculdades mentais. É isto que parece, não é?
Então, depois de mais de um mês, como pode continuar na rua, sobretudo, pelo argumento de que é essa a sua vontade -pelos vistos foi o que os agentes da PJ, aparentemente, alegaram a um comerciante. E, sem querer culpar directamente alguém, incluindo familiares, como aceitar-se pacificamente a inércia dos serviços da edilidade?
Em face do seu comportamento desviante -sendo notório o desequilíbrio mental, permanecer num banco de jardim e dormir na rua, pode ser considerado, não pode? Pergunto eu que não sou psiquiatra. Como pode entender-se que não se peça a intervenção do Ministério Público? Existe uma Lei de Saúde Mental, não existe? E também o Internamento Compulsivo em Portugal? Claro que sim. Vamos espreitar:

O portador de anomalia psíquica grave que crie, por força dela, uma situação de perigo para bens jurídicos, de relevante valor, próprios ou alheios, de natureza pessoal ou patrimonial, e recuse submeter-se ao necessário tratamento médico pode ser internado em estabelecimento adequado.”;
Pode ainda ser internado o portador de anomalia psíquica grave que não possua o discernimento necessário para avaliar o sentido e alcance do consentimento, quando a ausência de tratamento deteriore de forma acentuada o seu estado”.

CUSTA MESMO A ENTENDER...

Como, para mal dos meus pecados, já me passaram vários casos idênticos a este, confesso, para além de me irritar, não consigo entender a morosidade em resolver casos análogos. Como se já não bastassem os velhos do esquecimento. O problema é que, pelo arrastamento, por vezes, quando as autoridades intervêm já é tarde de mais. Como foi há uns anos o pingue-pongue do caso Anildo Monteiro, que veio a morrer por intervenção médica tardia -o apelido é mera coincidência. 

3 comentários:

Susana Magnolia disse...

Fico realmente chocada e muito preocupada. Como podemos viver em "sociedade" se até em situações de risco como esta, mentem? Como pode ter havido comunicação entre algum dos órgão e nenhum ter dado conta que se tratava da Sónia? Hoje é ela. Amanhã pode ser qualquer um de nós.

Anónimo disse...

O pedido de Internamento compulsivo foi feito no dia 22 de Fevereiro de 2017.
Hoje é dia 21 de Março e nada foi resolvido.
Apenas foi nomeado um advogado para a representar.

Está tudo pendente de avaliação médica que segundo percebi teria de ser feita num praso de 15 dias.

Nada pode ser feito porque existe Lei. Mas a Lei também determina prasos para obtenção de uma decisão para um caso de tal urgência, e não está a ser cumprida.

Entretanto a situaçao piora. Continua na rua como um animal abandonado!

Não se tratam assim as pessoas. Nem vale a pena comentar...TRISTEZA

Anónimo disse...

FIQUEI MUITO TRISTE QUANDO LI O CASO DE SONIA MONTEIRO E MAIS TRISTE FIQUEI POR SABER QUE EM PORTUGAL AS INSTITUICOES QUE DEVIAM AJUDAR COM O PROBLEMA MENTAL QUE A PERTURBA IGNORAM ESSA PESSOA,QUE NAO SE PODE AJUDAR POR ELA PROPRIA,AONDE ESTAO OS DIREITOS HUMANOS,OU JA NAO HA DIREITOS HUMANOS SO HA DIREITOS ANIMAIS.