quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

A BAIXA VISTA DA MINHA JANELA



TEXTO ESCRITO A QUATRO MÃOS.
POR  MÁRCIO RAMOS E LUÍS FERNANDES


A Baixa tem  prédios históricos. Como é natural, uns com mais história, outros com menos. Uns de propriedade privada, outros com classificação pública. Todos, uns e outros, deveriam ser preservados, fomentando o seu restauro, e não seguir o exemplo de alguns países como, por exemplo, os Estados Unidos que, para criar espaço e dar lugar a empreendimentos luxuosos, mandam implodir edifícios com grande historial.
Coimbra, tendo em conta que a sua riqueza memorial reside na sua monumentalidade, deve manter a traça antiga. Apesar disso, interrogo: mas a que custo? Tenho para mim que, apesar da grande simplificação dos últimos anos, a autarquia ainda se mete demasiado nas decisões que deveriam calhar apenas ao proprietário. Um exemplo? Obrigar a pintar um edifício de determinada cor. Porque terá a edilidade de se imiscuir nesta decisão? Não é a diversidade que marca a diferença e torna a homogeneidade aceitável, menos rotineira e sempre igual?
Vamos por partes:
Se há uma queixa recorrente nesta zona é que a Baixa não tem residentes, mas,  sejamos honestos,  como pode uma pessoa  escolher viver numa casa bonita,  com passado histórico, se não tiver conforto? Sem isolamento térmico, ou ar condicionado?
Ainda que de certo modo em contradição, percebo até que a câmara  tenha de impor certos limites mas  pergunto: será que substituindo janelas de madeira velhas por alumínio, com cor da madeira e a imitar e à imagem das anteriores, desrespeita a história do prédio? Quanto custa colocar vidro duplo em janelas de madeira? Em traços gerais, apenas o dobro e com durabilidade menor. Ainda que se entenda a obrigação de ser o mais fiel possível, também terá de se entender que quando a imposição é demasiado gravosa só há dois caminhos possíveis: ou não se realiza ou faz-se contra a lei. Quero dizer, portanto, que qualquer norma legal deve ter sempre acoplada dois princípios: a simplicidade para a exequibilidade e o custo mínimo para evitar a dificuldade financeira.
Para além disso, será que, dentro da edilidade, há uma interpretação única ou várias? Conta-se por aqui, pelas ruas, ruelas e becos, que, em vários casos concretos, para cada técnico sua sentença.
Sejamos justos, com alguma centralização no Gabinete para o Centro Histórico que se praticou nos últimos vinte anos –parece-me que agora não- todos os proprietários encontraram ali um aliado para resolver os seus problemas. É óbvio que por uma questão de justiça não posso deixar de referir o seu director, Sidónio Simões -um técnico que mais ano menos ano, por força da aposentação, deixará o serviço- que, para além de conhecer muito bem todo o edificado, age de mangas arregaçadas e dá uma lição ao burocrata de gabinete. Muitos problemas, aparentemente irresolúveis, encontraram solução pela sua via. Um dia destes, nem que seja por um simples encontro em jantar, este funcionário superior deve merecer uma homenagem dos citadinos.
Talvez por termos uma padroeira  da cidade cuja flor  favorita era a rosa,  vejo muitos edifícios, nesta cidade, pintados em que a cor rosa predomina. Algumas vezes demasiado forte mas, se essa foi a vontade expressa do dono, não tenho nada com isso.
Por outro lado, temos o problema dos cabos de comunicações e energia eléctrica nas fachadas e sem que se vislumbre uma solução à vista. Uma das medidas possíveis seria obrigar as operadoras de comunicações a, com autorização prévia do proprietário, escondê-los dentro das paredes. Num abuso reiterado, estas empresas vão ao limite de nem sequer darem uma satisfação ao dono do prédio. Procedem como se estivessem imbuídas de um direito especial de ocupação.
Voltando à Câmara Municipal de Coimbra, tenho para mim que ao invés de facilitar existe uma vontade expressa de complicar. O resultado dessa tramitação é que perdemos todos: o munícipe, a Baixa, a cidade. Vou dar um exemplo: a histórica sapataria Elegante, na Rua Visconde da Luz, encerrou em 2011. O edifício foi vendido e, alegadamente, os novos adquirentes, sem autorização legal, creio, elevaram uma parte do telhado para a cota do vizinho e, com isso, tornaram o edifício mais harmónico do ponto de vista paisagístico. Resultado –ressalvo que escrevo sem grande conhecimento do processo-, passados cinco anos, a loja da desaparecida Elegante, como mausoléu a um comércio que morreu, continua abandonada. Não sei se fui claro, o que quero dizer é que a administração pública tem de estar preparada para dar solução à ilicitude e não pode arrastar no tempo uma resposta que urge. A não ser assim, somos levados a pensar que esta administração é inimiga do progresso e de quem quer investir e revitalizar a cidade. Não estou a dizer que se feche os olhos a tudo, antes, quero dizer que o que deve prevalecer é o princípio da solução rápida, seja com coima, seja lá com o que for. É preciso dar solução. Solucione-se!
A edilidade municipal é uma entidade abstracta mas constituída por pessoas que, tal como eu e você leitor, erram todos os dias. Logo, por inerência, não podem proceder na imobilidade iluminada e serem mais puristas que os jacobinos da Revolução Francesa. Os políticos são eleitos para ajudarem o cidadão nos problemas do dia-a-dia, e os funcionários públicos para estarem ao serviço da comunidade.
Coimbra tem todo o potencial para ser (já é) uma marca a nível mundial. Vamos todos trabalhar para a tornar mais apetecível para viver?


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