quinta-feira, 16 de outubro de 2014

O TELEFONE QUE (NÃO) CHORA



“Começo por me apresentar aos senhores: sou um telefone de cabina que, tal como marco de correio, está implantado na Rua da Sofia junto ao desaparecido pronto-a-vestir Infinito e que, depois de passar por vários ramos, é agora uma loja de bijutaria.
A razão que me trás junto de vossemecês, pelo dedo do meu amigo Luís, é desabafar. Já há muito tempo que sou vítima de violência por parte de uns energúmenos à vista de toda a gente. Por pensarem que sou uma espécie de galinha que basta bater-lhe no traseiro para largar ovos de ouro, todos os dias levo pancada. Os comerciantes, à minha volta, são testemunhas do meu sofrimento. Ainda hoje à hora do almoço levei nas bentas e, que remédio, lá larguei uma moedita para o filho da mãe me deixar em paz. Sinto-me uma espécie de contribuinte nas mãos deste governo, apertado, apertado, desprezado e à espera de morrer para acabar o padecimento. Todos os dias me pergunto o que faço aqui, a meio da rua, à espera que alguém se lembre de me dar umas bofetadas para me extorquir uns cobres. Estamos rodeados de pequenos ladrões, sem dignidade, em que basta uma moeda para satisfazer a sua gula. É triste, não é?”

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