sexta-feira, 31 de outubro de 2014

LEIA O DESPERTAR...



LEIA AQUI O DESPERTAR DESTA SEMANA 

Para além  do texto "AS SOBREVIVENTES", deixo também as crónicas "O RENASCER NA NOSSA IMPÉRIO"; "SOFIMODA RENOVADA"; "REFLEXÃO: UM GATO GORDO TEIMA EM RESISTIR"; e "NOITE BRANCA QUE JÁ FOSTE"



AS SOBREVIVENTES

Tem um ar angélico e apático. Por ser simples e direta, faz recordar um lago de águas paradas que só se movimenta quando o vento, em rajada, se lembra de soprar. A tristeza no seu rosto é patente até pelos mais distraídos e que nunca se dignam olhar alguém que, na rua, luta por uma dignidade difícil de manter neste oceano de sobrevivência. Só quem, como eu, conhece a Sónia Margarida, que vende bolos de Ançã junto à Loja do Cidadão, percebe e pode imaginar o provável turbilhão de emoções que se agitam no seu interior.
Já lá vai o princípio dos anos de 1980, com menos de menos de meia dúzia de anos, era a Sónia uma criança tímida, insegura e cheia de medos que entraram na família pelo seu pai, recentemente falecido, cuja memória ainda inunda os olhos da filha porque pai é pai, mesmo que não mereça ser. Onde quer que esteja o progenitor da Sónia, que a terra lhe seja leve e que Deus o mantenha, que não faz cá falta, e não o chame para o nosso meio –que a acreditar nas filosofias espírita e budista, inevitavelmente, a sua alma voltará em busca da redenção, da absolvição e da purificação. Hoje quando se fala em violência doméstica não se cogita o pânico que foi a vivência diária da Sónia e da sua mãe, Cândida, junto ao Largo da Sé Velha. Bem sei que não fica bem falar de quem já nos deixou e mais que certo já foi julgado e pagou pela infelicidade causada aos mais próximos mas, porque a Sónia e a sua progenitora são sobreviventes de um campo de tortura física e psicológica e de um calculado terror e destruição, com uma admiração desmesurada por elas, não posso deixar de rememorar a suas vidas de sofrimento.
Sem receber qualquer subsídio, com o companheiro, o Paulo, desempregado, e dois filhos a estudar, a Sónia, tem a sorte de ser acompanhada por uma mãe-coragem, a Cândida, que, apesar de toda a sua existência de padecimento, ampara e cuida da filha e dos netos com um incomensurável e indescritível amor. Esta protetora, como símbolo de bravura e abnegação, merecia ser condecorada. Esta mulher de arrojo, para exemplo de tantos que se lamentam por isto e aquilo, que já fez de tudo, nunca se queixou. Mesmo a ganhar pouco, continua sempre em frente e protege a Sónia dos espinhos que a miséria tece. Por isso mesmo se entende que, apesar de algumas limitações e erros de percurso da filha, continue a ser a sua guia material e espiritual e lhe indique o caminho certo para a obrigação de ser boa madre.
A Sónia já fez de tudo, desde limpezas até vender pinhoadas na rua, para não submergir e tentar equilibrar uma família que tinha tudo para não dar certo, seguida de perto por Cândida, faz do esforço a sua luz. Há uns tempos lembrou-se de que, em criança, ia com a avó vender uns especiais bolos de Ançã para a porta do antigo Hospital da Universidade, na Alta, no início de 1980. Agora, levanta-se todos os dias às 5h00 da matina para conseguir estar ao romper da aurora junto à Loja do Cidadão. Com enfase declara: “com muito amealhar de sacrifício, já consegui comprar um carrinho usado para o Paulo, o meu marido, proximamente vender castanhas aqui no Largo das Olarias. A vida está correr e a sorrir para nós!”
Para ajudar esta família a viver com decência, vamos provar o delicioso bolo de Ançã que a Sónia, este exemplo de resistência, vende junto à Loja do Cidadão?



O RENASCER NA “NOSSA” IMPÉRIO

Na última terça-feira da semana passada, com discrição, reabriu a pastelaria Império, um dos mais antigos e importantes ícones da Baixa da cidade. Desde que encerrou, em Dezembro de 2013, as Ruas da Sofia e João de Ruão nunca mais voltaram a ser as mesmas. Foi como se aquelas duas artérias, pelo desgosto, entrassem em depressão profunda e perdessem o espírito que as animou durante mais de sete décadas. Agora, com esta grande notícia que nos enche de contentamento, estão reforçadas e muito melhor. Transpor as portas deste nobel estabelecimento, e abraçar com os olhos as suas paredes com mensagens de alento, é como se tivesse regressado um ente querido que partiu para longe e pensávamos que não voltaria mais.
Em exploração de franchising, low-cost.come, inserido em rede num total de 31 lojas espalhadas pelo País, o conceito é, pelo apoio da marca e traquejo do franchisado, ter qualidade ao melhor preço. Trata-se uma sociedade familiar, com três sócios, o Virgínio Campos, o Paulo Mendes e o Paulo Valente, com sede em Aguiar da Beira e com larga experiência na área da panificação. Nesta vila pertencente ao distrito da Guarda e sede de município detém um estabelecimento ligado à hotelaria e outro, bastante conhecido e similar, em Viseu.
Segundo Virgínio Campos, um dos sócios da firma, “estamos aqui para fazer o melhor que sabemos. Criámos cerca de uma dezena de novos postos de trabalho e não viemos para fazer concorrência desleal a quem quer que seja. A nossa preocupação é apresentar a melhor qualidade ao mais baixo valor. Já viu os nossos preços? Vendemos uma boa sopa por 85 cêntimos. E não esquecemos o café, que faz parte dos nossos hábitos diários, pode tomar por 40 cêntimos. Temos noção do grave momento económico que o País vive e, por isso mesmo, abraçámos este projeto completamente empenhados, de alma e coração. Seguindo a mesma linha, embora remodelada, temos fabrico-próprio de pastelaria e pão. Conhecemos a história desta grande casa, que é a Império, e o quanto representa para a revitalização global desta área histórica. Não há progresso sem esforço e envolvimento de todos. Naturalmente, porque somos interessados, estamos a dar tudo para que dê certo. Aproveito a oportunidade para fazer um convite aos seus leitores: venham visitar-nos! Venham provar a nossa variada ementa. Ao frequentarem a nossa casa, para além de nos incentivar a fazer cada vez melhor, estão a ajudar a Baixa, a mantê-la viva!”


SOFIMODA RENOVADA

Depois de uns dias encerrado para renovar o interior e apresentar a nova coleção de utono/inverno, e após cerca de trinta anos a servir a cidade, reabriu esta semana a Sofimoda, na Rua da Sofia e paredes-meias com a pastelaria Império –também reavivada recentemente.
Arménio Pratas, com meio-século de experiência comercial e outro tanto a defender o associativismo e as causas dos outros, é um homem de fé e acredita que valeu a pena toda esta modificação no estabelecimento. “As coisas estão muito difíceis –tu sabes bem-, mas não podemos parar! Continuo com a mesma vontade indomável de seguir em frente. Sou otimista –os pessimistas não têm lugar no comércio. Tenho esperança que a nossa economia recupere. Em relação ao que estava habituado, a trabalhar com grandes marcas caras, tive de dar uma grande reviravolta no sortido da minha loja. Agora direcionei a oferta sobretudo e visando a classe-média, homem e senhora, oferecendo artigos de qualidade mas a preços mais competitivos. Temos de nos adaptar, não é? A Baixa tem potencialidade, a Rua da Sofia é uma das artérias mais importantes da cidade e com a classificação da Unesco está a recuperar de uma letargia e já há muito reivindicado por quem aqui desempenha a sua profissão.
Aproveitando a oportunidade, gostaria de dar um grande abraço a tantos, tantos, clientes dedicados que, pela preferência da minha casa, durante décadas têm sido a infraestrutura, a trave-mestra, da Sofimoda. Também para os muitos amigos que em fases de maior fragilidade me deram força anímica para continuar. É nestas alturas que reconhecemos quem nos quer bem. O meu eterno reconhecimento. Bem-haja a todos!”
Com o nosso contentamento de alegria, com a ajuda da esposa, Amélia Pratas, e da funcionária de tantos anos, a Olinda Maria, o Arménio segue recauchutado na estada da vida comercial. Muita força e coragem! Felicidades, meu amigo, tu mereces! És uma pessoa boa, sempre solidário e pronto a ajudar o próximo. Vamos visitar a Sofimoda e dar um abraço ao Pratas?


REFLEXÃO: UM GATO GORDO TEIMA EM RESISTIR

Apesar de, em pose de descanso, aparentar uma certa dureza nas bentas é um animal dócil. Se eventualmente o contemplarmos e o envolvermos num olhar, mesmo de comiseração, parece voltar a ser o traquinas que já foi, que calcorreou telhados e caminhos ásperos, e sorri para nós. É como se aquela rijeza no rosto fosse uma máscara que o tempo se encarregou de moldar ao seu jeito. Pelos contornos de um certo ar pachorrento e bigodes que teimam em romper, parece um gato enorme. Apesar de abandonado, e diariamente dormir na soleira da porta das desaparecidas Galerias Coimbra junto à Praça do Comércio, conserva uma avantajada barriga, o que, tendo em conta a sua situação, é um contrassenso. Pelo estereótipo, de vadio desprezado, deveria ser um trinca-espinhas, um magricela anorético, o que só por isso já nos causa conforto, alivia a nossa consciência e, sem pesos na perceção, nos faz seguir em frente para as nossas vidas atribuladas. Afinal, animais abandonados há por aí às dezenas pelos becos, ruelas e pracetas. Se fossem capazes de entender, saberiam que deveriam sair para longe do nosso olhar, para os prédios decrépitos em torno da cidade. Mas não entendem e, como se fossem almas penadas que vieram a este mundo para nos assombrar, teimam em vir dormir para qualquer canto e quase que tropeçamos neles.
Este animal gordo, avermelhado e de cara cheia, para além de teimar em dormir sempre no mesmo sítio, agora deu em tossir, tossir, de uma forma impressionante. Coitados dos moradores que, deitados numa aconchegada cama, por ali fazem por descansar e têm de gramar os “latidos” tossicados do pobre bicho. O que é estranho é haver tantas associações de animais e nenhuma delas se ocupar dele. É estranho, não é? Se calhar estão à espera que ele morra! Ora, a viver uma vida assim, por que não nos faz ele a vontade?
Já aqui escrevi sobre esta história no princípio deste mês. Neste fim-de-semana, passados mais de 20 dias, o António José Vaz Monteiro foi acometido de doença súbita e, em estado grave, foi internado nos HUC de urgência. Como nos sentimos?



NOITE BRANCA QUE JÁ FOSTE

São 20h30 deste último sábado, 25 de Outubro. Para um outono declarado no calendário, o tempo está surpreendentemente quente, o que se traduz numa noite muito agradável para passear. Nas ruas estreitas, vazias de transeuntes, só duas lojas comerciais se mantêm abertas ao público. Seria até normal se, por acaso, não estivesse programada uma “Noite Branca”, um evento que desde há vários anos consiste em manter todos os estabelecimentos comerciais pela noite dentro, até cerca da meia-noite, realizada pela APBC, Agência para a Promoção da Baixa de Coimbra.
Esta festa, comunicada aos comerciantes com convites distribuídos porta-a-porta há cerca de uma semana, foi anunciada assim: “Para o próximo dia 25 de Outubro (sábado) a APBC preparou uma programação de Jazz com momentos musicais a acontecer ao longo de todo o dia, nos mais diversos espaços da Baixa de Coimbra, a qual culminará com um espetáculo à noite, pelas 22h00 na Praça 8 de Maio. As atuações musicais terão carácter itinerante, com arruadas, e estático em zonas mais centrais como a Praça 8 de Maio, Arco de Almedina, Largo da Portagem, Praça do Comércio. Neste dia decorre em simultâneo o Congresso Nacional dos Bombeiros Portugueses com a exposição de viaturas antigas de bombeiros nas ruas da baixa. (…) Gostaríamos ainda de propor a todos os comerciantes uma campanha promocional com a realização de “happy hour” entre as 15h00 e as 18h00, por exemplo, em que se oferece ao cliente um artigo a cada 10 minutos, sendo que o esquema de promoções/ofertas a atribuir fica ao critério de cada estabelecimento”.
Logo nessa altura, segundo algumas declarações de comerciantes que ouvi, caiu mal o facto de, num período de tão graves problemas financeiros, a APBC aconselhar a oferta de produtos ou mesmo fazer descontos. Vender abaixo do preço já há muito que está ser feito na generalidade do comércio. Foi entendido como se quem o sugeriu não soubesse o que se passava na prática. Mesmo assim, contrariamente ao costume, durante a tarde estiveram mais lojas de portas abertas do que é hábito. Sem fazerem negócio, às 19h00 os poucos resistentes estavam esgotados e a deitar fumo pelas narinas. Pedindo reserva de identidade, foram vários os queixumes que me chegaram tais como: “prometeram que havia animação ao longo do dia, nos mais diversos espaços da Baixa, e não houve quase nada. Aqui nas ruas estreitas só andou um músico com um violoncelo. A direção da APBC parece os políticos a prometerem tudo e depois não cumprem nada. Isto é gozar com a nossa cara! Foi tudo feito para beneficiar a hotelaria, cuja orientação lhes pertence, e a fazer acontecer a animação nas ruas largas de cima e Praça 8 de Maio, onde está tudo concentrado. A mim nunca mais me apanham cá!” -declarações de um comerciante da Rua Eduardo Coelho conjuntamente com um grupo que estava a encerrar por volta das 20 horas.
Com estas adesões, com estas declarações, com estes resultados, sobretudo para o comércio, valerá a pena continuar a apostar nas Noites Brancas?



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