terça-feira, 17 de junho de 2014

ROSTOS NOSSOS (DES)CONHECIDOS: A GAITEIRA



É uma encantadora mulher, que está para a vida como traineira está para o mar. Se tem de ser, tem de ser, barco à água! Já atravessou ondas alterosas, tornados de vã esperança, que a fizeram temer o futuro para tocar o horizonte. Os seus olhos negros, como proa apontada ao longínquo, carregam fardos de nostalgia e solidão. E ela pensa nisso? Ora, ora! Isso é que era bom! Dar confiança à tristeza? Alegria precisa-se, mesmo que se vá buscar ao fundo da alma, às catacumbas desconhecidas de um ser que parece vagamente nosso conhecido. Por isso mesmo, como para enxotar a melancolia, faz da cantiga um tónico rejuvenescedor anímico. Cada resplandecer da aurora, cada fio de luz, é um milagre de Deus que vê nascer diariamente para ir trabalhar atravessando a madrugada. É uma mulher do povo. Uma heroína desconhecida. Um modelo popular de que ninguém fala, ninguém sabe nada desta mulher-mãe-avó, um todo-o-terreno onde da fraqueza faz alento e da força um Sol de verão. Esta senhora de que, com gosto, vou deixar contar um pouco da sua história, dá pelo nome de Celeste Correia e faz o favor de ser minha amiga. “Canta” Celeste!
“O que hei-de dizer, Luís? Sou uma pessoa humilde, tu sabes. Tenho 66 anos e, para andar de cabeça erguida, trabalho, trabalho, como se a labuta fosse o meu caminho e o meu destino, ao mesmo tempo. Nasci na Sé Nova, na parte alta da cidade, num berço remediado. Os meus pais viviam razoavelmente mas entendiam que o lugar da mulher era em casa e, por conseguinte, só precisava de aprender costura. E foi o que fizeram comigo. Apesar da professora primária ter salientado os meus dotes para as letras não foi suficiente para os demover. Aos 9 anos estava a trabalhar numa modista, na Rua das Padeiras. Aos 19 anos casei e o meu falecido marido, Manuel Dourado, que durante cerca de uma dúzia de anos foi presidente da Junta de São Bartolomeu, entendeu também que o meu lugar era em casa a labutar… na costura. Tive de mandar um grito de Ipiranga para poder trabalhar fora. Entretanto fiquei viúva e o trabalho, como manto de inverno e aderindo à minha pele, nunca mais me largou. Preciso de estar permanentemente ocupada. Ao abrigo do Programa Novas Oportunidades concluí o 9.º ano e agora estou na ESEC, Escola Superior de Educação de Coimbra, a fazer um curso de informática. Talvez também por isso mesmo, sou uma pessoa de causas. Ajudar quem precisa é para mim um prazer inexplicável. Quando me chamam vou para o Banco Alimentar. Vivo um dia de cada vez. Desde que tive uma ameaça de cancro da mama, passei a encarar a existência como uma dádiva divina e não um peso. Adoro cantar e representar. Aqui dentro do peito, deste cansado coração, bate o pulsar de uma artista. É por este amor que agora faço parte do Rancho das Tricanas de Coimbra. É por esta paixão, que me consome e me dá alento, que no ano passado abracei o projecto da “Orquestra dos Músicos de Rua de Coimbra”. Até ando doente por não cantar. Quando voltamos à rua, Luís?”

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