sábado, 11 de janeiro de 2014

NÃO HÁ FOME QUE NÃO DÊ FARTURA (PARA ALGUNS)



 Cerca das 8h00 da manhã de hoje, Sábado, no Largo da Freiria, alguém colocou dentro e fora do contentor de resíduos cerca de dez sacos com alimentos em bom estado de conservação e perfeitamente comestíveis. Como se tivessem saído há pouco do supermercado, de um dos cabazes do Banco Alimentar, presume-se, poderia ver-se várias unidades de azeite, óleo, cereais, imensos pacotes de bolachas –que ostentavam a designação de “venda proibida”-, salsichas, arroz, manteiga, tostas, massas e farinha. 
Liliana Rodrigues, funcionária da sapataria Veludo Carmim, estava incrédula: “já viu uma coisa destas? Quem me chamou a atenção foi o funcionário da limpeza. Recolhi logo os sacos e comecei a dar a algumas pessoas. Estavam aqui mais de 50 euros em valor. Num tempo em que há tanta fome, fazer uma coisa destas é um crime!”
Hélder Fonseca, o funcionário da Recolte, empresa contratada pela autarquia para a limpeza urbana, também estava indignado. “Nunca vi uma coisa destas. Repare que falamos de alimentos em bom estado de conservação. Tanta gente a passar privações e outros que, aproveitando-se do esforço e da boa vontade de quem dá, num desprezo sem limites pelas privações alheias, deitam para o lixo a caridade de tantos!”
Por volta das 11h00 ainda havia vários sacos cheios. Como curiosidade, colocaram-se os alimentos expostos num plástico, no chão, e em menos de cinco minutos desapareceu tudo.
É evidente que estamos perante um caso isolado, e uma árvore sozinha não faz a floresta, mas dá para pensar. O que daqui se apela a quem ler este texto é que não se coloquem bens directamente no lixo que, mais que certo, farão jeito a outros que nada têm. Se permite a sugestão, em vez de despejar no contentor, deixe fora e exponha o mais possível para que se veja o que está dentro dos sacos. Em nome da Íris e do irmão, que levaram quase todos os alimentos abandonados em vários sacos hoje, agradece-se a sua preocupação. Obrigado.


JÁ QUE ESCREVEMOS SOBRE LIXO…

(Foto de Fátima Santos)


No mesmo dia, de Sábado à tarde, por volta das 17h00, quando Fátima Santos, uma comerciante com loja na Rua Eduardo Coelho, passava na Rua das Padeiras apercebeu-se de uma pequena multidão num grande frenesim. Aproximou-se e verificou que, ao longo da artéria, alguém tinha despejado o que até aí, certamente, teria sido o recheio de uma casa. Eram bonecas em bom estado, eram naperons, louças, cortinas, roupas, uma bicicleta e artigos diversos. Vamos dar a palavra à Fátima: “ o que mais me impressionou foi a ânsia manifestada naquelas pessoas de encontrar alguns objectos de valor. Pareciam atropelar-se uns aos outros. Fez-me lembrar aquelas fotos recolhidas em países do terceiro-mundo, de crianças e adultos a vasculhar nas montureiras. Era uma imagem impressionante. Repare que em cerca de uma dezena e meia de pessoas, muitas delas “arreavam” bem, com vestuário de qualidade.  Não se entende que uns, afirmando-se necessitados, recusando o que lhes dão, mandem fora bens em bom estado e outros não sendo carenciados, esgravatem no lixo.
Sinto-me divida na avaliação deste acto, na forma de despejar assim o “lixo”. Por um lado, quem colocou tudo na via pública permitiu que fosse feita uma escolha, um reaproveitamento, e o destino de algumas boas peças fosse a destruição. Por outro, sentir o que senti ao ver aquela imagem foi algo que transcende a minha própria razão. Aquela representação era um paradigma de pobreza, de desgraça; um espectáculo degradante. Nunca tinha presenciado alguma coisa no género. Creio também que, para a Baixa e para a cidade, não foi um quadro digno. Só gostava que visse como ficou a rua no fim do “assalto”. Parecia que tinha passado por ali um tornado. Deveria ser criado um local próprio onde os particulares pudessem depositar os seus excedentes e para que outros mais necessitados, com outra dignidade e sem o estigma do remexer em lixo, ali pudessem livremente recolherem o que lhes interessasse.”


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