sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

"COMO É QUE FOI? COMO É QUE FOI?" (2)



 Hoje, sexta-feira, no segundo dia de cantar as Janeiras na Baixa pela denominada “Orquestra de Músicos de Rua de Coimbra” (OMRC) correu ainda melhor do que ontem. Faça o favor de ter calma que eu vou contar tudo. Só lhe peço que não me pressione, que em “stress” não funciono. Só lá vou com calma. Nada de rapidinhas.
Como já deve saber, graças ao cuidado de Emília Martins, presidente da Direcção da Orquestra Clássica do Centro, a nossa madrinha –só espero que não se esqueça de nós nos folares da Páscoa-, fomos simpaticamente recebidos na autarquia pela vice-presidente e vereadora da Cultura, Manuela Azevedo, e pelo assessor da presidência, Miguel Pignatelli, onde cantámos as Janeiras para os dois. Vejam bem que a minha Rainha da Cultura veio de propósito do Paço, da Rua Pedro Monteiro, para nos receber na Câmara. É certo que poderia ter dispensado os funcionários da edilidade durante 15 minutos para assistirem também ao espectáculo, mas, estando nós em crise e sendo esta professora universitária uma querida –que até já vai à bola comigo e lá no átrio até brincou com Miguel Pignatelli: “veja bem Miguel, que o Quintans hoje até vem cantar para nós, nem sequer vem reclamar nada!”- com franqueza, diga-me, leitor, com esta delicadeza toda, como é que eu poderia articular alguma coisa? Um homem, mesmo sendo fraquito como eu, e às vezes querendo parecer forte, até se comove até à alma. É ou não é? Com toda aquela amabilidade, palavra de honra, juro pela minha mãezinha, até lhe dedicava uma serenata só para ela. Estou a ficar mole, não estou? Que querem? É da idade, pronto! Ah, é verdade, até já se me varria, Manuela Azevedo e Pignatelli deram uma nota (de euros) cada um.
Continuando a descrever este segundo dia, dali, da Praça 8 de Maio, partimos para o Mercado Municipal D. Pedro V. Nesta popular praça fomos muito bem recebidos por todos. Alguns vendedores de cara fechada como granito não se abriam nem com a minha promessa de que quanto mais nos dessem melhor sorte teriam em dobro neste 2013. Sei lá, se calhar não acreditaram em mim. Nem percebo bem por quê, se até dizia aquilo muito sério e com convicção. Bom, o que interessou é que, em maioria, todos comparticiparam. Engraçada esta minha constatação: as pessoas de rosto aberto, de olhar brilhante e de felicidade, todas contribuíram. É como se entendessem que, mesmo tendo pouco, ao dividir o seu magro pecúlio, estavam crentes de que a sorte se encarregaria de os recompensar. Pessoalmente, acredito no aforismo de que só cresce quem reparte. Não me perguntem onde fui buscar esta fé, mas creio solenemente nesta máxima. Nesta manhã foi conseguido o dobro de ontem: 140 euros, que foi distribuído por sete músicos –já sabem que eu não alinho em tostões. Quando ganharmos milhões vou ganhar com juros. É só uma questão de tempo.
Hoje, contrariamente a ontem, ninguém nos fez notar que era uma vergonha andar a pedir. Penso que todos acharam graça. Aliás, contrariando o padre João Veríssimo, de S. Julião, paróquia da Figueira da Foz, que afirma no Diário as Beiras de hoje de que “é sempre humilhante estender a mão”, digo que não. A meu ver será inibitório e nunca humilhante. Isto é, o acto de pedir, para quem pede, cria embaraço, gera insegurança, provoca uma sensação de desconforto, no sentido do demérito. A acção de pedir estimula a quem pede uma diminuição da sua igualdade, na condição de pessoa, perante o outro, mas não humilha. Humilhar, etimologicamente, significa rebaixar, vexar, tratar com desdém ou desprezo alguém –ontem o comerciante ao reagir mal é que humilhou quem pedia. Ora, sendo assim, a obra de pedir, para quem o faz, é apenas uma representação que lhe pode causar incómodo e nada mais do que isso. Mas, atentemos, se pedirmos para outros este sentimento não é sentido por quem solicita algo. Curiosamente, neste caso, a sensação é de conforto, de altruísmo, por sentir que está a ser pro-activo, está a contribuir para tornar mais feliz alguém que precisa e não é bafejado pela graça, divina ou da natureza, de ter felicidade pela lacuna . Por outro lado, já que falo no assunto, faz muita confusão, sobretudo a quem labuta arduamente no dia-a-dia, que o pedir na rua não seja proibido e sancionado legalmente. Vamos por partes, o acto de pedir, para além de ser uma manifestação da vontade, enquanto reflexo humano, é essencialmente um direito natural –não tão profundo como o respirar, por exemplo, mas quase. Logo, enquanto instintivo, nunca poderia ser adoptado. No extremo, para o ser, teria de ser feito um cardápio para a permissão. Por exemplo, um indivíduo que repentinamente sofresse um ataque de pânico poderia ou não pedir ajuda? Por aqui já se verá a dificuldade em interditar um gesto que, acima de tudo, é um paradigma de humildade e, já agora, excluindo os vendilhões do templo, tão repetido na Bíblia e defendido pela religião Católica-romana. No paradoxo, ou nem por isso, deveria ser impedida a fraude –ou seja, quem se faz passar por deficiente e não é-, mas como provar? Então na impossibilidade de probatório, deve optar-se pela liberdade de cada um fazer o que entende -incluindo quem dá- ainda que seja mal-entendido pela maioria. O facto também de as comunidades se terem tornado mais individualistas e perderem o espírito de “reserva mental”, enquanto defesa do todo na condenação de certos costumes arbitrários não ilegais, contribuiu para estes estado de desvalorização do trabalho enquanto tarefa digna para ganhar o sustento e facilitismo para auferir dinheiro através do ócio.
É certo que as ditaduras proíbem a solicitação do óbolo, mas, tal como outras liberdades, é outra questão. Num sistema democrático, de liberdade, no absurdo –ou nem tanto assim, por que há países que o fazem- pode multar-se quem dá. Tenho muitas dúvidas nesta medida. O acto de dar, tal como quem pede, é uma acção da “voluntas”, da vontade, mas intrinca também num direito natural, que é: “quem me pode impedir de distribuir o que é meu por quem me apetece, desde que não prejudique os meus consanguíneos directos?”. É certo que nem sempre a lei caminha paralelamente à moral. Basta lembrar a proibição de alimentar animais na via pública. Estou convencido que nunca houve alguém que se debruçasse sobre esta dissidência e os multados nunca levaram a sua impugnação a instâncias superiores. Se levassem, provavelmente, ganhariam facilmente esta questão. Trata-se de um direito natural. Ninguém pode proibir outro de matar a fome a qualquer ser vivo. Por outro lado ainda, corroborando a minha tese, a lei até obriga o apoio à vítima –e aqui teríamos de entrar nos labirintos etimológicos e, dissecando, interrogar: quem pode ser considerado vítima?
Alonguei-me, não foi? Que querem? O culpado disto tudo foi o senhor Padre João Veríssimo, que não conheço, mas deu-me aqui o “leitmotiv” para explanar a minha via filosófica. Obrigado senhor Padre.

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