sexta-feira, 2 de novembro de 2012

EDITORIAL: QUE ESTADO É ESTE?

(Imagem de Leonardo Braga Pinheiro)


 Esta semana um comerciante da Baixa de Coimbra, a braços com uma divida às Finanças embora a cumprir com plano de pagamento, viu todo o dinheiro desaparecer da sua conta bancária. Volto a sublinhar que, segundo as suas declarações, “embora a data de vencimento do pagamento do acordo entre nós celebrado fosse esta quinta-feira, 1 de Novembro, no princípio da semana, logo na segunda-feira, quando passei o cartão para poder levantar dinheiro, verifiquei que a conta estava limpa. Fiquei alarmado. Fui ao banco e fiquei a saber que as Finanças retiraram-me tudo. Apesar de ter ido à repartição da minha área e ter sido admitido o erro e me ter sido dito que a ordem tinha sido emanada de Lisboa, durante três dias a minha firma e a minha família ficaram sem meios para prover os seus desenvolvimento e sustento. Só Deus sabe o que passei! Nunca pensei chegar a esta altura da vida e sentir-me achincalhado desta maneira” –diz-me de lágrimas nos olhos e algumas delas a correrem pela face gretada de tanta noite mal dormida.
Este comerciante, de 61 anos e que trabalha desde criança, teve várias lojas na cidade e, durante décadas, deu emprego a vários trabalhadores. Hoje labora sozinho com a esposa no seu pequeno estabelecimento e as poucas vendas que vai fazendo vão servindo para cumprir o débito ao Estado e, dali, poder alimentar a sua família.
Entre várias questões que se colocam, numa altura em que tanto se fala em Estado Social, podemos começar por interrogar: que Estado é este que, num assalto descarado de completa insensibilidade perante um cidadão que trabalhou a vida inteira, deixa uma família sem um único euro e entregue à sua sorte? Poderemos aventar vários apodos: Estado selvagem? Estado de confisco? Ou Estado sem merecer o nome tal como o conhecemos, enquanto Contrato Social de Hobbes e Locke e Montesquieu e Rosseau, desde os séculos XVII/XVIII?
Seja lá qual for a denominação que arranjarmos, este procedimento desumano é mais selvático do que as relações entre animais irracionais. É simplesmente inqualificável.
Outra questão que se coloca, para a administração fiscal, que diferença existe entre um homem que sempre trabalhou desde criança e um outro que pouco contribuiu para a riqueza nacional? Não há nenhuma diferença? O passado não conta para nada? Estamos perante obrigações iguais? Voltamos ao positivismo puro e duro, em que, pelo simples facto de se ser cidadão, para o Governo, são todos iguais? E a humilhação por que passou este comerciante, que numa altura da sua vida em que legitimamente merecia ter algum desafogo económico, a quem pode ser endereçada? Tem futuro este contrato social e este Estado que assim (mal)trata os seus “filhos”? Poderemos falar em relação paternal? Que sistema é este?

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