quinta-feira, 16 de agosto de 2012

A (NOSSA) PROFESSORA DE INGLÊS


 Talvez para justificar uma certa linha de homogeneidade psicológica, as mulheres, amiúde, vezes, declaram que os homens quando entram na meia-idade, a partir dos 50 anos, progressivamente, num certo e inevitável retorno, se vão transformando em crianças crescidas. Quando ouço estas manifestações do género feminino, dou por mim a sorrir e a verificar que, mesmo sendo uma forma de auto elevação em sede própria à custa da desvalorização alheia do sexo oposto, têm alguma razão. É como se o homem, ao chegar ao último capítulo da sua história, sinta necessidade de viver o que até aí não viveu; precise de ter o brinquedo que não teve no tempo útil, por impossibilidade financeira dos progenitores; seja acometido de uma demanda por falar àqueles que conheceu durante toda a sua existência mas que, por razões diversas, sobretudo pelo alheamento, deixou de comunicar.
Ontem dei por mim a fazer isto mesmo. Estava sentado numa esplanada e vi passar uma pessoa que não via há décadas. De repente senti um incontrolável desejo de a cumprimentar. Como impulsionado por uma mola, levantei-me e dirigi-me à idosa que reconheci como a minha professora de inglês, na antiga Escola de Sidónio Pais –agora Jaime Cortesão-, há 36 anos, no Curso Noturno de Aperfeiçoamento Comercial. Naturalmente que não me reconheceu, mas quando lhe disse que fora seu aluno na ainda –não se sabe durante quanto tempo- escola junto ao Mercado Municipal de Coimbra, que o meu apelido era “Quintans” e que fora ao meu casamento, vi as lágrimas nos seus olhos a balouçarem entre o cai não cai. Disse então que se lembrava quer do sobrenome invulgar, quer do facto de ter sido dos pouquíssimos alunos que fora ao enlace matrimonial.
Engraçado é que, apesar dos seus setenta e picos anos, a “senhora professora” Maria Teresa Novais –como era então conhecida e tratada na época- conserva a mesma classe, o mesmo porte professoral, dividido entre a simplicidade e a exigência. Alta, magra, e de cabelos prateados curtos, continua a parecer uma cidadã inglesa de passagem por Portugal.
Demos por nós a recordar aqueles tempos de sacrifícios para todos, mas de uma convivência, compreensão mútua e inter-ajuda excepcional. Quer de quem ensinava, quer de tantas turmas de trabalhadores-estudantes em que, tal como eu, os alunos saíam do trabalho às 19h00 para entrar na escola quinze minutos depois sem comer e sem sequer termos dinheiro para uma sandes. Só jantávamos, diariamente, cerca da meia-noite. Quer os professores quer os discípulos todos se esforçavam muito. Uns a ensinar outros a aprender. Destas fornadas de aprendizes saíram comerciantes, industriais, alguns professores, outros médicos e até advogados. Todos eles a concretizarem os seus sonhos a trabalharem de dia e a estudarem no período pós-laboral. Hoje, com todas as facilidades que se vêem, estaremos melhor? Por um lado, ainda bem que o ensino se universalizou e, quase, de modo igual possibilitou que todos possam almejar os desejos individuais e a mesma meta, mas, por outro lado, estes imensos sacrifícios passados na época deu-nos a todos, à geração de que faço parte e fomos muitos milhares, uma tarimba sem igual para vida. Há quem diga que todo o homem, para o ser verdadeiramente e alcançar um nível elevado de espiritualidade, deveria ser obrigado a conhecer as malhas da pobreza e sentir a incapacidade de sonhar com o que não pode ter. É nesta frustração, na insuficiência, que se passa a valorizar o que se alcança a pulso e a muito custo.
Comparando com os tempos hodiernos, em que tudo parece estar a voltar atrás num retorno impossível de parar, agora, é como se estivéssemos a pagar com juros elevadíssimos esta curta era de hiper-desenvolvimento. Talvez valha a pena pensar nisto.

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