domingo, 31 de julho de 2011

A GERAÇÃO À RASCA DE 1950



Da autoria de uma jovem  de 61 anos (isso mesmo!)...

«Geração à rasca foi a minha. Foi uma geração que viveu num país vazio de gente por causa da emigração e da guerra colonial, onde era proibido ser diferente ou pensar que todos deveriam ter acesso à saúde, ao ensino e à segurança social.

Uma Geração de opiniões censuradas a lápis azul. De mulheres com poucos direitos, mas de homens cheios deles. De grávidas sem assistência e de crianças analfabetas. A mortalidade infantil era de 44,9%. Hoje é de 3,6%.

Que viveu numa terra em que o casamento era para toda a vida, o divórcio proibido, as uniões de facto eram pecado e filhos sem casar uma desonra.

Hoje, o conceito de família mudou. Há casados, recasados, em união de facto, casais homossexuais, monoparentais, sem filhos por opção, mães solteiras porque sim, pais biológicos, etc.

A mulher era, perante a lei, inferior. A sociedade subjugava-a ao marido, o chefe de família, que tinha o direito de não autorizar a sua saída do país e que podia, sem permissão, ler-lhe a correspondência.

Os televisores daquele tempo eram a preto e branco, uns autênticos caixotes, em que se colocava um filtro colorido, no sentido de obter melhores imagens, mas apenas se conseguia transformar os locutores em "Zombies" desfocados. 


Hoje, existem plasmas, LCD ou Tv com LEDs, que custam uma pipa de massa.

Na rádio ouviam-se apenas 3 estações,  a oficial Emissora Nacional, a católica Rádio Renascença e o inovador Rádio Clube Português. Não tínhamos os Gato Fedorento, só ouvíamos Os Parodiantes de Lisboa, os humoristas da época.

Havia serões para trabalhadores todos os sábados, na Emissora Nacional, agora há o Toni Carreira e o filho que enchem pavilhões quase todos os meses. A Lady Gaga vem cantar a Portugal e o Pavilhão Atlântico fica a abarrotar. Os U2, deram um concerto em Coimbra em 2010, e UM ANO antes os bilhetes esgotaram.

As Docas eram para estivadores, e o Cais do Sodré para marujos. Hoje são para o JET 7, que consome diariamente grandes quantidades de bebidas, e não só...


O Bairro Alto, era para a malta ir às meninas, e para os boémios. Éramos a geração das tascas, do vinho tinto, das casas do fado e das boites de fama duvidosa. Discotecas eram lojas que vendiam discos, como a Valentim de Carvalho, a Vadeca ou a Sasseti.

As Redes Sociais chamavam-se Aerogramas, cartas que na nossa juventude enviávamos lá da guerra aos pais, noivas, namoradas, madrinhas de guerra, ou amigos que estavam por cá.


Agora vivem na Internet, da socialização do Facebook, de SMS e E-Mails cheios de "k" e vazios de conteúdo.

As viagens Low-Cost na nossa Geração eram feitas em Fiat 600, ou então nas viagens para as antigas colónias para combater o "inimigo".


Quem não se lembra dos celebres Niassa, do Timor, do Quanza, do Índia entre outros, tenebrosos navios em que, quando embarcávamos, só tínhamos uma certeza...
 ...a viagem de ida.

Quer a viagem fosse para Angola, Moçambique ou Guiné, esses eram os nossos cruzeiros.
Ginásios? Só nas coletividades. Os SPAS chamavam-se Termas e só serviam doentes.

Coca-Cola e Pepsi, eram proibidas, o "Botas", como era conhecido o Salazar, não nos deixava beber esses líquidos. Bebíamos, laranjada, gasosa e pirolito. 

Recordo que na minha geração o País, tal como as fotografias, era a preto e branco.

A minha geração sim, viveu à rasca. Quantas vezes o meu almoço era uma peça de fruta (quando havia), e a sopa que davam na escola. E, ao jantar, uma lata de conserva com umas batatas cozidas, dava para 5 pessoas. 

Na escola, quando terminei o 7ºano do Liceu, recebi um beijo dos meus pais, o que me agradou imenso, pois não tinham mais nada para me dar. Hoje vão comemorar os fins dos cursos, para fora do país, em grupos organizados, para comemorar, tudo pago pelos paizinhos..

Têm brutos carros, Ipad's, Iphones, PC's, .... E tudo em quantidade. Pago pela geração que hoje tem a culpa de tudo!!!
Tiram cursos só para ter diploma. Só querem trabalhar começando por cima. 

Afinal qual é a geração à rasca...???

(RECEBIDO POR E-MAIL)

3 comentários:

Anónimo disse...

Muito interessante este texto,uma análise social bem estruturada e fundamentada,demonstra que na escrita a simplicidade é a melhor maneira de expôr as opiniões sobre determinados assuntos.E quem escreve sabe da dificuldade que é conseguir essa simplicidade me objectividade.
Devido á minha profissão falo com muitas pessoas,de variadas idades,de diferentes capacidades financeiras,etc.(estas 3 letrinhas dão muito jeito quando se escreve).E muitas delas soltam afirmações como:«antigamente não era nada disto,havia mais respeito...»,«sabe o que lhe digo?o Salazar faz cá muita falta..»,«o que era preciso outro como o dr.salazar..»,etc.(outra vez as 3 letrinhas).Este texto dá-me vontade de tirar umas fotocópias e ter á mão para dar quando necessário.Por aqui se vê que a nossa memória é muito susceptivel de influências exteriores,é selectiva.Só nos lembramos do que nos «interessa»,daquilo que nos dá jeito para exprimir determinada opinião em determinado momento.E a jovem sexagenária explica isto muito bem com exemplos concretos.O maior exemplo é o facto deste texto ser impossivel de publicar no tempo da outra senhora.No tempo em que havia mais respeito,no tempo em que eram todos felizes e que havia mais educação,etc. etc.(outra vez!)
Abraço,Marco

Anónimo disse...

Porque também fiz parte dessa geração Anos 60, porque cumpri o serviço militar dessa época, porque fui mobilizado e embarquei para Angola, li com muita atenção os comentários e posso dizer que senti palavra a palavra o que foi escrito.Quem fala assim e escrevé, não é gago.
Parabéns.

Anónimo disse...

Excelente reflexão sobre o que foi efetivamente a "Geração à rasca", e apenas em solidariedade para com os meus amigos que tiveram poliomielite e ficaram para toda a vida agarrados a uma cadeira de rodas, lembro também que nem a vacina existia para evitar essa traição que a vida lhes provocou... Parabéns!