sábado, 14 de agosto de 2010

UM CORTE NA ALMA DE UMA MULHER


(IMAGEM DA WEB)



 Quando eu recebi a carta do hospital nem liguei muito. Coloquei-a na bilheteira junto de outras missivas para abrir mais tarde. O que poderia dizer-me o médico que eu já não soubesse? Afinal eu sempre fora cuidadosa com o fazer exames frequentemente aos seios. Além disso, volta e meia, mirando-me ao espelho, fazia a apalpação que todas as mulheres com mais de quarenta anos costumam fazer. Como um invisual tacteia com as mãos tudo o que está à sua volta, também eu, sempre à procura de um pequeno nódulo ou sinal, todos os dias, inspeccionava pacientemente as minhas mamas. Eu tinha muito orgulho nelas. Há uns anos atrás até fizera uma redução no seu volume. Ficaram pequeninas e direitinhas. Sempre gostei de mostrar um pouco do meu colo, mas depois da intervenção tornei-me provocante e desci em muito os meus decotes. Não era por mal, acho eu. Penso que seria uma forma de eu mostrar a minha vaidade. Qualquer mulher sabe que os seus seios são a sua segunda alma.
Apesar dos meus cinquenta anos, era uma alegria sentir na rua os olhares famintos e libidinosos dos homens. Poderiam, por vezes, serem incomodativos, mas o prazer de ser o centro do centro de um olhar masculino era indescritível. Afinal eu precisava de me sentir viva. O meu marido morrera de cancro poucos anos antes. Foi um sofrimento atroz todo o seu padecimento. Enquanto o via definhar diariamente, com ele, eu sentia que me esvaía também. Só quem passa um sofrimento destes pode sentir. A partir daí tornei-me mais tolerante com os outros e comecei a dar mais valor à vida. À minha e à dos outros. Passei a ter mais cuidado com a minha saúde.
Ora, portanto, se estava sempre a fazer exames, naturalmente que a carta do hospital que recebi mais não poderia ser do que, tal como outras vezes, a comunicar-me que estava tudo bem. Assim sendo, nada de pressas, à noite, calmamente, quando abrisse as contas da luz e da água, verificaria.
 A mensagem era curta: “Com urgência, solicitamos-lhe que se desloque aos serviços para repetição de exame anteriormente efectuado”. Foi como se o coração caísse aos meus pés. Uma mulher tem um sexto sentido que lhe permite antever, à distância, um acontecimento futuro. Nessa noite já mal dormi. Logo de manhã estava a repetir o exame. Segundo o médico, foram detectados uns nódulos que era preciso conferir com urgência. Naquele tempo intermédio foi um martírio. Sentia que a vida se resumia a um fio de uma navalha. Se a ansiada comunicação do exame fosse negativa ficaria de uma lado. Se fosse positiva, mal de mim, ficaria no precipício da existência curta. Quando pensava nisto, eu que nunca ligara muito à religião, até me benzia. É verdade que a agonia do meu marido, não sei porquê mexeu comigo –se por um lado me sentia revoltada, por outro senti necessidade de me aproximar da religião. Deu para ver o quanto somos pequeninos, pequenas partículas perdidas no Universo, à deriva neste mundo. É como se fossemos marionetas tocadas de cima por um destino traçado.
Foi então que recebi o telefonema para me apresentar imediatamente no hospital. Meu Deus, o que é que se passava comigo? O médico, sem grandes rodeios, disse taxativamente: “a senhora tem cancro da mama em elevado grau. Vai ter que se fazer uma ablação do seio imediatamente”. Não estava em mim, as interrogações eram demais em turbilhão na minha cabeça. “Porquê eu? Porquê? Porquê?”.
Quando acordei da intervenção cirúrgica, como desse por mim num longo pesadelo, levei a mão ao peito. Sofri um choque brutal. As lágrimas, como água a rolar num declive, soltaram-se e chorei desesperadamente. Como era possível ter perdido um pouco da minha alma? E agora? Agora, era metade de mulher. Sentia-me amputada, cortada no meu peito.
A primeira vez que me vi ao espelho, chorei, chorei, tempo infinito, numa mistura ora de cólera, ora de desânimo. Olhava a imagem reflectida e via um monstro, um esboço deformado. Quem me aceitava assim? Metade de gente. Nenhum homem jamais me quereria ter nos braços.
Como o processo, comigo, foi ao contrário, primeiro fui intervencionada e só a seguir comecei a apanhar radiações de “químio”, depois da cirurgia, aconselharam-me a cortar o cabelo, porque, seria normal vir a cair. Não acedi. Os meus cabelos prateados? Nem pensar! Se caíssem, logo se veria, pensei juntamente com todo o meu desgosto de ter já perdido o meu seio.
Então comecei a fazer os tratamentos de quimioterapia. Meu Deus, o cabelo começou a separar-se em braçados. Quando me levantava da cama eram grandes tufos que jaziam inertes no travesseiro. E eu, sem defesas, lacrimejava como uma Madalena, e interrogava vezes sem fim da razão do meu corpo, como leproso, estar a decompor-se em pequenos elementos. Sentia-me carne dissecada numa qualquer banca de matadouro. E mais uma vez, em sofrimento atroz, desfazia-me em gotículas de padecimento.
Aos poucos, com a ajuda dos serviços de psicologia do hospital, fui recobrando a minha autoconfiança. Levavam-me a ver raparigas com pouco mais de metade da minha idade e com o mesmo problema: “Cancro da mama”. Levavam-me ao instituto de Oncologia a ver pessoas mais novas do que eu sem esperança de vida. Paulatinamente fui sentindo que, afinal, nesta roleta russa da morte, eu era uma sorteada com uma terminação de vida. Progressivamente fui recuperando toda a força anímica e toda a alegria que sempre me acompanhou.
Há cerca de um mês fizeram-me uma reconstrução do seio. Estou feliz, muito feliz. Passei a poder usar novamente os decotes que enlouqueciam os homens. Estou a viver um novo tempo. Passei a dar valor a tudo o que me rodeava, às pequenas coisas. Passei a deixar de ligar se a cozinha estava arrumada ou a roupa estava passada a ferro. Eu quero lá saber! Eu quero é dançar ao vento, dançar à chuva, na discoteca ou onde calhar. Eu quero é gozar a minha vida! Andei mais de cinquenta anos enganada.
Olhe para o meu peito…estou linda não estou?








5 comentários:

Anónimo disse...

Texto lindíssimo.

Eunoname disse...

Eu não sou homem, mas estou a olhar o seu peito e lhe digo... está lindissima!!!

LUIS FERNANDES disse...

Para o anónimo -que tenho a certeza é mulher, porque só mulher se expressa assim!-...obrigado. É tão bom receber um elogiozito...ai se é!

LUIS FERNANDES disse...

Para a "Eunoname"...obrigada.
Há frases que só uma mulher consegue expressar.
Volte sempre...amiga.

Maria Eugénia disse...

A dor acorda!
Andamos por aí meio distraídos, e um dia percebemos, muitas vezes da pior maneira, o quanto somos mesquinhos.
Viva com alma!