quinta-feira, 1 de abril de 2010

OS COMERCIANTES DA BAIXA JÁ PODEM MORRER




  Os dois jornais da cidade, o Diário as Beiras e o Diário de Coimbra, hoje escrevem que a ACIC, Associação Comercial e Industrial de Coimbra, e a APBC, Agência para a Promoção da Baixa de Coimbra, assinaram um protocolo de prestação de serviços funerários aos comerciantes com a Servilusa.
Uma óptima medida, digo eu, você não acha? Claro que é, homessa! Lá está você com esse riso escarninho que embirro, pá, até me provoca voltas ao estômago. Por que é que você é assim? Que coisa! Não me provoque, se faz favor. Não é por nada, como sabe eu até sou independente e…”a mim ninguém me cala”, está ver, não está? Pois, mas aqui, tenho de ter alguma calminha na maledicência que todos os envolvidos são meus amigos. Portanto, está de ver que este contrato é excelente. Lá você estar com esse sorrisinho de troça, isso é lá consigo, comigo não se passa nada. Aqui não emito opiniões. Aliás, até para mostrar a minha inquestionável independência até vou para a rua ouvir o que pensam os empresários. Sinceramente, nem precisava de me deslocar para saber que batem palmas à iniciativa da ACIC e da APBC. Mas eu gosto das coisas limpinhas, para depois não virem acusar-me de estar sempre a dizer mal. Nada disso!
Encontro-me então na esquina do volta-atrás, ali na Rua do Por-do-Sol, tenho ao meu lado o “Zé” Galhofas, polidor de esquinas profissional, empresário em nome individual. Claro que você conhece-o bem, ele está sempre encostado à esquina. Parece o Lucky Luke. De chapéu puxado sobre a testa, uma perna apoiada na parede, de modo a fazer um quatro, um cigarro meio apagado no canto da boca e um ar de gozo que até mete ginjas. Este homem é um trabalhador incansável. Graças a ele aquela parte do edifício ainda não caiu. Até digo mais: é o prédio mais bem conservado da Baixa. Vou então saber a sua opinião:
-Zé, bom dia, é para o blogue “Questões Nacionais”. Nem preciso de te explicar o que é, não conheces tu outra coisa. Começava então por te fazer uma pergunta: como sabes a ACIC e a APBC assinaram um protocolo com a Servilusa para esta empresa de serviços fúnebres prestar apoio na morte aos comerciantes, isto é, a todos os empresários. O que achas da medida?
-Ó meu!, vamos por partes: primeiro não sei de que merda de blogue falas. Nem sequer tenho computador. Comigo é tudo ao natural, não sei estás a topar a coisa. Não alinho em modernices. Eu sou um conservador, estás a ouvir?...
-Claro que sim Zé…(respondo contrafeito a titubear)
-Quanto ao contrato para assistência na morte…acho muito bem. Embora eu tenha muita concorrência –nos últimos tempos, isto é de mais!-, no entanto, até aproveito para denunciar a afluência de estrangeiros. Isto é desleal, meu! Devo dizer-te que isto não pode continuar. Aliás, até estou a pensar em criar uma Ordem. Isto está mesmo impossível. Assim…a Ordem dos Polidores de Esquinas…estás a ver, meu? Assim daquela do tipo do Marinho e Pinto. Ó pá, sempre se evitava esta bagunça. Já viste que qualquer gato-sapato, sem currículo, entra nesta actividade? Ó pá…o principal culpado é o Rendimento Social de Inserção. Diz-me lá, a ACIC não me pode ajudar a tratar da papelada?...
Fosca-se! Isto é que é uma sorte. Sai-me logo um destes. Não tenho mesmo sorte nenhuma!
Vou mas é entrevistar o senhor Amílcar da mercearia “Queres fiado? Toma!”. Fica ali no Beco da Má-língua. Este homem deve ter uma boa opinião. Ai isso deve. Tem 85 anos e o seu estabelecimento é o último do género que resta no Centro Histórico. Vou então transpor a porta. Porra, não se vê nada…está tudo escuro. Cheira a mofo “à brava”. Ouve-se lá no canto o som, saído de um rádio a válvulas, de um pastor da IURD: “Jesus é o caminho”.
-Senhor Amílcar…senhor Amílcar…bom dia…
-O que é queres? Responde-me lá do fundo uma voz enfastiada. Diz lá….despacha-te…desembucha, para ver se vale a pena, ou não, acender a luz. Se vens para aqui, armado em turista, só para tirar fotos, vai dar uma volta…melga!
-Era só mesmo para lhe fazer uma perguntita, senhor Amílcar, o que acha o senhor de um protocolo assinado entre a Servilusa, a APBC e a ACIC para prestarem serviços funerários aos comerciantes?
…Mal acabei a frase, tive de me desviar, caso contrário, levava com uma maçã na cabeça…
-O quê, palhaço, vens para aqui gozar comigo, ó quê? Podia ser teu pai, estás a ouvir ó meu merdanas? Queres fazer-me o funeral, é, meu filho da puta? Só me faltava mais isto…quererem enterrar-me. Meu cabrão…vai mas é brincar com a cabra da tua mãe...
Fogo, cada vez acho que é mais difícil levar esta missão de informar a bom porto.
Vou mas é ali, ao Café Santa Cruz, na esplanada, costuma lá estar sentado o meu amigo Almerindo Abrolhos. É uma espécie de “Zezé Camarinha” da cidade. Tem cerca de 45 anos. É “engatatão” profissional, e empresário em nome individual. Você conhece-o, de certeza absoluta, está sempre na esplanada do café. Costuma vestir fatos de bom corte e sapatos de alta marca –normalmente envernizados. O cabelo é negro, retinto, carregado de brilhantina. Tem um bigodinho, em traço cortado sobre o lábio e uma pequena pêra sobre o queixo. O seu intenso cheiro a perfume caro, comprado na perfumaria “Pétala”, inunda toda a praça 8 de Maio. Já está a ver quem é, não já? Pois claro, é esse mesmo.
Vou então entrevistar o Almerindo.
-Bom dia, Abrolhos! Estás bom?
-Ó meu!...Ó meu! Dá cá um abraço… (e agarra-se todo cá ao rapaz, parece o Durão Barroso a abraçar o José Sócrates).
-Ó Almerindo, desculpa lá estar a perturbar o teu trabalho. Deves estar profundamente concentrado naquela loura que vai ali a passar de saia curta, mas a tua opinião é muito importante. Certamente já terias lido nos jornais de hoje, a ACIC e a APBC estabeleceram um protocolo de prestação de serviços fúnebres aos comerciantes. O que achas disso?
-Ó meu, deixa ver –cofia o bigode e a pêra com grande frenesim-, por acaso nem tinha pensado nisso. Ó pá! Isso é mesmo uma grande medida. Pelo menos os comerciantes ficam a saber que vão ter um enterro como deve ser no fim da vida. Como isto está, tudo indica que iriam ser enterrados em campa rasa. Uma medida baril…meu…sem dúvida! Já que não tiveram uma boa vida –em vida- vão ter uma boa morte. Ó pá, estou impressionado. Gostei, meu…

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