quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

O (DES)ACORDO ORTOGRÁFICO






Eu deveria ter falado nisto logo no dia primeiro do ano, mas, depois de pedir muitas desculpas aos leitores, tenho a certeza de que me vão perdoar o lapso. Então é assim: eu não vou aderir à “normatividade” do novo Acordo Ortográfico e vou continuar a escrever (mal) como sempre tenho feito. Parece que estou a ver a sua expressão de desalento e, a seguir, a interrogação: “oh…oh, ai não? Então porquê?”. Calma! Eu explico.
Então aí vai: eu não posso adoptar uma nova grafia se nem esta domino. Está correcto, não está? Pois está! Se não fosse o “Word”, os erros seriam tantos que pareceria um nabal antes do desbaste feito pela “ti” Alice. E então as vírgulas? Ai meu Deus, quem me dera ser um Saramago para poder dispensá-las! Às vezes, nos disparates que escrevo, há verdadeiras batalhas campais entre as ditas. Aparece uma do lado esquerdo e outra do direito a discutirem, a gritarem, a chamarem-me a atenção, que uma delas deve ficar ali a separar a frase. Às vezes, não tenho mesmo paciência e, pumba!, não coloco nenhuma. Toma lá, que já almoçaste! Fogo!, não tenho mesmo pachorra para estas comas reivindicativas.
Estão a ver, por exemplo, já os pontos finais e pontos parágrafos, coitados, são de uma ternura que às vezes, até apetece pegar neles ao colo. Se uma pessoa não os colocar no lugar que legitimamente têm direito, nunca reclamam. É certo que a frase fica mais compridita mas consegue-se entender. E os meus amigos “pontos”, sempre quietos no seu canto, sem rasgos estatutários de importância iluminada, parecem um meu amigo que é humilde que até chateia.
E então os pontos de exclamação! Só queria que vissem o “despretenciosismo” destes exclamativos. Até poderíamos ser levados a pensar que, em caso de troca por um qualquer ponto final, abrissem a boca de espanto e fizessem um “basqueiro” maior que uma qualquer “peixeirada” no beco do “trás-p’ra-frente”. Nada disso, mantêm-se ali firmes e hirtos sem um queixume, parecem a guarda da Rainha Isabel II de Inglaterra em sentido. Sim, porque se quisessem armar confusão até era fácil, bastava começarem a exclamar e faziam-nos rir ou chorar, sei lá!
Agora o raio das vírgulas são de mais, sempre a chatear, parecem o Mário Nogueira em defesa dos professores. Assim de repente, por analogia, será que as vírgulas são comunistas? Ai de certeza, só pode! Ou homossexuais, sei lá! Espero que não. Se não, ainda vamos apanhar mais uma dose e querem também casar umas com as outras. Ai, não me admira nada que sejam lésbicas. Andam sempre umas atrás das outras. Não são nada como o travessão. Estão a ver, não estão? Ali, teso que nem um barrote de cerne, a parecer o jumento do “Zé Pedreira”, naqueles dias em que lhe falta uma jumenta e, sem poder matar a fome, está para ali naquele espectáculo indecoroso, com o bacamarte avermelhado que parece mesmo o pau da bandeira nacional. Antes partir que ser transformado em parênteses – que às vezes, eu que sou mesmo tanso, confundo a sua aplicação, e provoco um grande alvoroço no ego do travessão. Por acaso, nunca se lhe ouve um ai, mas poderia fazê-lo, eu estou a discriminá-lo. Ai isso estou! Mas, palavra de honra, que nem é por mal. É ignorância. Que se há-de fazer no caso de uma maleita como esta que me domina, que parece uma gripe daquelas antigas –antes desta modernaça, a H1N1, de agora, que até é curada com uma vacina- que se dominava com uma grande cachaçada, estão a ver?
Não sei se fui claro. Se calhar não fui mesmo. Pronto, mas isto para dizer que, vendo bem as coisas, em consciência, não posso adoptar o novo Acordo Ortográfico, pelo menos enquanto não dominar o velho, estão a ver, não estão? Já sei que vão reclamar, que eu sou mesmo um estropiado do Restelo, etc, etc., mas que hei-de fazer? Já estou mesmo a ver Vital Moreira a queixar-se da minha falta de ortodoxia, como fez há dias no jornal Público e a queixar-se do jornal onde escreve. O que é que hei-de fazer? Nada! Lá tenho que amargar as críticas do grande constitucionalista.
Pode ser, com o tempo, que eu me torne num grande linguista. Talvez daqui a uns anitos. Não se ria, se faz favor, que isto é mesmo coisa séria. Nunca se sabe. Já vi muitos burros, depois de uma albarda de luxo, serem transformados em cavalos de corrida. E porque não eu? Sim, porque, neste caso, é mesmo a prática que faz o monge. Tenham lá paciência…

3 comentários:

Jorge Neves disse...

Sem acordo ortografico: é um facto que fiz um pacto.
Com acordo ortografico: é um fato que fiz um pato.

Anónimo disse...

Falsa modéstia caro Luís.Seria muito bom na cultura portuguesa se 30% da população escrevesse como o senhor.Tem muito a ensinar a certos profissionais da imprensa escrita e falada.Por vezes é cada calinada que mete dó.Eu por mim, e com a minha idade, vou continuar a escrever conforme a minha professora da escola de Santa Clara a D. Alice (paz à sua alma)me ensinou.
Ana

LUIS FERNANDES disse...

Olhe, Ana, com franqueza, acredite que escrevi este texto, tentando ter alguma graça, sem dúvida, mas é mesmo verdade. As vírgulas existem para me azocrinar o juízo. Palavra. Não sei o que se passa com a maioria, mas comigo são um terror. É verdade que para se escrever bem, só com prática mesmo. Aliás, como todas as coisas. Mas eu não estou a ser modesto, é mesmo verdade. Sabe, tem sido o tempo a ajudar-me. Não gostaria de cair naquele choradinho - que tão bem sei fazer- de que tive uma infância desgraçada e, esse facto, dá para desculpar tudo. Mas a verdade é que comigo foi mesmo assim. Pouco estudei. Tem sido o tempo, através da prática, a ensinar-me. Posso não parecer, mas sou mesmo muito ignorante. É certo que leio o que posso, mas não tenho uma cultura consubstanciada. Costumo dizer que sou um generalista. Sei um bocadinho de tudo, mas, especificamente, como especialista em alguma coisa, sei pouquíssimo. Digamos que sei onde devo pesquisar, porque conheço os tópicos. Apenas isso. Acredite que estou mesmo a ser sincero.
Muito obrigado pelas suas palavras. É sempre um gosto ler o que escreve. Mas não me tome por quem não sou.