quarta-feira, 1 de julho de 2009

SOFRER EM SILÊNCIO NO VAZIO DA RUA DAS RÃS






Maria” está sentada no patim de um edifício decrépito. Na fachada deste prédio da Rua das Rãs, a cair aos bocados, podem ver-se as mazelas como chagas num Cristo crucificado. Por estranho que pareça, entre humano e coisa existe uma similitude de abandono. Para tudo estar conforme, para haver total entrosamento entre os dois apenas falta o dístico: HELP ME. Ambos, em conluio, como siameses, parecem ter entrado pelo cano da sociedade. Olha-se e pressente-se que ambos, edifício e prédio, derrapam para o juízo final como se tivessem um karma, uma imanente carga negativa de desgraça e miséria.
Maria” está cheia de equimoses no rosto como se tivesse sido sujeita a tortura física. Olhando para os membros superiores desnudados, verificamos que tem um braço todo negro como carvão. Continuando a olhar o seu corpo de menina -que apesar dos seus 36 anos, parece ter muito menos-, percorrendo de cima para baixo, paramos nas suas pernas bem torneadas, semi-cobertas com uma mini-saia de ganga. Foi então que verificámos que uma outra grande mancha negra tolda toda a sua rechonchuda coxa. Que lhe aconteceu “Maria”? Interrogamos.
Com olhos tristes de solidão, descreveu. Como habitualmente faz, há cerca de cinco anos, na noite de sábado, dia 27 de Junho, esta mulher, talvez por ambas serem pisadas sem dó, que a rua trata melhor que os homens, estava no seu local de “trabalho”, na Avenida Fernão de Magalhães. Eram 23H45. Junto a esta profissional de sexo parou um carro, tipo carrinha, já com muitos anos de rodagem, não tantos como os de “Maria”, mas já com algumas marcas notórias do tempo. Dentro da viatura um homem de cerca de 38 anos, simpático, demasiado simpático, para quem, como cliente, frequenta o turno da noite. O necessitado de sexo, estava bem vestido informalmente de camisa e calça de ganga. Depois de acertado o preço do serviço a prestar por “Maria”, esta recomendou o seu “apartamento” usual, junto ao canavial, longe dos olhares curiosos, mas muito perto da avenida. A simpatia do homem não tinha limites, “se não se importasse, íamos para mais longe. Sabe, próximo de pessoas a passar, fico inibido. Sou emigrante há cerca de 20 anos. Estou em França há cerca de 10 anos. Só venho a Portugal de cinco em cinco”, confidencia o homem em apelo a “Maria”. Esta, perante tanta simplicidade, aparentemente a mostrar tanta debilidade e carência de afecto em carradas de solidão, a rapariga, calejada pela vida, usada por mil mãos duras e insensíveis, que ninguém interroga se está bem, perdeu as suas naturais defesas e anuiu: este cliente simpático, pelo trato, tinha-lhe dado completamente a “volta”.
Foram então para a zona dos campos do Bolhão, ali junto ao Choupal. Como o tempo de gozo do cliente parecia não ter limite, “Maria” insurgiu-se, tentando pôr um final na prestação de serviço. “Desculpa, lá, mas já chega!”, disse cortante. Mal começou a soerguer-se dos bancos do carro, o até aí cliente simpático, em mudança de personalidade brusca, transforma-se em máscara de terror. Com esgar alucinado de prazer sádico, coloca uma mão ao pescoço da infeliz rapariga e, num ódio recalcado e incontrolado, profere: “já chega? ó puta! Tu fazes tudo o que eu quiser!”.
A partir daí, por entre sorrisos tresloucados, “Maria” foi violada, espancada, espezinhada no corpo e na alma.
Sem olhar ao que era feito com o seu corpo, esta mulher filha da dor e mãe do sofrimento, só pensava em fugir. Devagar, disfarçadamente, foi colocando uma mão na porta. Assim que estava em posição, deu um empurrão à besta e, semi-nua, deu em fugir pelo campo. Mas o animal em forma de homem era ágil e depressa a agarrou. Pegando num tronco abandonado partiu-o no corpo de “Maria” e deixou-a estatelada e ensanguentada no meio de cardos e giestas campestres. Na “negritude” da noite, no silêncio imaculado, apenas quebrado pelos grilos, em companhia de conforto, deitada de braços abertos a contemplar a paz serena da lua, a mulher viu os faróis do carro desaparecer no horizonte. Com ele foi a carteira com documentos, o telemóvel, e os sessenta euros que tinha feito de “safra”, incluindo este último serviço. Uma chuva miudinha, como bálsamo anestesiante, acariciava o corpo de “Maria” e fazia minorar o rasgo profundo que lhe carcomia as entranhas.
Durante minutos, horas, ou uma eternidade, “Maria” chorou em lágrimas de pesar como só os abandonados e sós conseguem lacrimejar. Em solilóquio, questionando-se a si mesma, sem resposta, perguntava-se porque eram os homens bestas pior que as ditas? “Porquê? Porquê?...” -interrogava-se sem fim e sem resposta.
Arrastando-se como pode, encharcada, descalça, nua de corpo e alma, cheia de sangue, “Maria” chegou à estrada da Cidreira. Gesticulando sem fim com os braços ao alto em direcção ao céu, pedindo ajuda aos automobilistas que passavam, esta mulher, mais uma vez, sentiu o desprezo, a segregação da caridade, a omissão, a negação de auxílio que moralmente e por direito é devido a quem precisa e sofre.
Maria” não sabe quanto tempo esteve na berma da estrada. Mergulhada pela noite adentro, só se lembra que, como anjo salvador no meio de demónios, parou um taxista e transportou-a sem dar importância ao facto do carro de aluguer ter ficado cheio de terra e sangue.
Maria” até hoje calou, mas só até hoje. Já denunciou esta brutalidade que não tem perdão. “Nem que seja pelas minhas colegas”, diz com ênfase, sublinhando as palavras. “Isto não se faz. É uma selvajaria sem perdão. A partir daí, nem tenho forças para “trabalhar”. Nem consigo entrar num carro. Mas eu não tenho quem me sustente. Porque há bestas, estupores, tão animalescas em forma de homens, assim?!”, interroga em pergunta de retórica.

3 comentários:

Milu disse...

Neste caso que acabei de ler, houve uma personagem que me comoveu profundamente - o taxista! Bem haja esse homem!
A Maria fez-se vítima dela própria, ao optar por um tipo de vida que encerra em si um paradoxo, porque embora designada por fácil é sobretudo difícil e perigosa. Pode sempre voltar atrás e arrepiar caminho, assim o queira ela, verdadeiramente.

Nilza Rouquentin disse...

Pior que a bestialidade do ato animalesco, é a hediondez do preconceito, da indigência moral de pessoas quese acham no direito de estigmatizar a mulher no seu livre árbitrio, marginalizá-la, ignorando problemas primários de fome , miséria e violência, golpes e contragolpes, que pautam suas historias, numa clara profanação a integridade humana.
Ignoram seus sonhos, não que elas sejam cegas deles e de seus deuses, já que dos sonhos a vida as fez desertoras.
Prostitutas são as pessoas que saqueiam os cofres da nação, empobrecendo o país, os sonegadores
de impostos, os mercadores da ética, numa escandalosa relação de cumplicidade e promiscuidade com o poder público.

Humberto Baião disse...

Olá Nilza !!

Que é feito de vc amiga ! ??

Saudadesssssssssss~

bjssssssssssssssssssssssssssss

Humberto Baião

Évora

Portugal