segunda-feira, 23 de março de 2009

A F(PH)ARMÁCIA (DE) NAZARETH


("OLHE AQUI! ESTÁ A VER ESTE BARÓMETRO?")



(UM PORMENOR DO TECTO)




(A LINDA FACHADA; TALVEZ A RAINHA DE MUITAS OUTRAS)



 Quem passar pela Rua Ferreira Borges, em Coimbra, mesmo que ande distraído, inevitavelmente os seus olhos vão poisar na mais linda fachada daquela artéria, quiçá rainha de todas as frontarias da cidade.
É o estabelecimento, em actividade, mais antigo da Lusa Atenas. “Foi fundada em 1815. Olhe que ainda conservamos os rótulos antigos feitos em Paris”, diz-me, acaloradamente e cheio de orgulho, o Dr. Victor David. Na sua voz, como um conservador de museu que ama o que preserva, nota-se a convicção, o empenho e a certeza de que tem uma responsabilidade social ao usufruir uma jóia de valor incalculável.
Fazendo analogia com o nome, pela sua beleza de exemplar único, se esta farmácia existisse no tempo de Jesus de Nazareth, este Homem, embora na Bíblia não conste de que alguma vez estivesse doente, teria sido cliente desta botica.
A título de curiosidade, começando pelo étimo, “Farmácia” é a ciência que tem por objecto o reconhecimento, a recolha e conservação das drogas simples e a elaboração dos medicamentos compostos. Esta ciência, e arte, de preparar medicamentos começou a ser protegida em Portugal em meados do século XV. A Faculdade de Botica foi instituída na Universidade de Coimbra no reinado de D. Sebastião (1568-1578)”, in Moderna Enciclopédia Universal.
Voltando à nossa jóia da Coroa, e continuando a ouvir Victor David, “esta farmácia é a vida e a alma da minha mulher”. E de facto, em boa verdade, não exagerou. Ao falar com a Drª Maria Ascensão, esposa e também proprietária, directora técnica da farmácia, sente-se o seu envolvimento na forma como fala da “menina dos seus olhos”.
A Farmácia Nazareth foi a primeira distribuidora para Portugal de artigos para revelação de fotografia e material radiológico. Estamos a falar dos primórdios do retrato, por volta de 1860, das placas de vidro de gelatino-brometo. Nos clientes da farmácia, de artigos radiológicos, contavam-se os falecidos médicos Moura Relvas e Adolfo Rocha (Miguel Torga).
Se os móveis originais desta botica “ancienne” falassem, mil histórias contariam. No entanto, a Drª Ascenção não deixa créditos por mãos alheias. Tudo o que respeita à sua “menina do peito” esta senhora não se cansa de contar. “Olhe que a minha farmácia foi o primeiro estabelecimento autorizado de distribuição para a zona centro de água das Pedras e água de Luso”. Complementa o marido, Victor David, “por volta do fim do século XIX, a água vinha pela “posta-restante” até à ponte de ferro, até à casa da Ponte, em Santa Clara, e depois era transportada em carroça até aqui à farmácia”.
Continuando a ouvir, com gosto, estes dois teimosos na conservação do património comercial, “olhe aqui! Está a ver este barómetro? Por volta de 1920/1930, os jornais diários da cidade (certamente entre eles o Conimbricense) vinham aqui saber das previsões de chuva para o dia seguinte”, diz-me Victor David, embalado na descrição de factos históricos relativos ao mais antigo estabelecimento de Coimbra e que está na sua família desde 1980.
A Farmácia Nazareth, contrariamente aos guias turísticos da cidade, que olvidam este quase bicentenário estabelecimento, é referida no Guia Michelin com a seguinte menção honrosa: “ao passar na Rua Ferreira Borges, vindo do Largo da Portagem, nos números 135/139, não esqueça de olhar para o seu lado direito. Encontrará a Farmácia Nazareth, um bom exemplo de conservação do património comercial” –citado de memória.

2 comentários:

Fernando disse...

Parabens ao Autor
Parabens aos meus amigos São, Victor e Patricia pela contribuição que dão ao património da cidade e do País, conservando aquela bela farmácia com os traços e beleza que a caracterizam.
A Cultura de Coimbra fica mais rica com o vosso contributo

nacho disse...

Mi mas sinceras felicidades desde el corazón para mis amigos/familia Vitor, Sao y Patricia a los que recuerdo con orgullo por ser como son. No queda mucha gente con la calidad humana que tiene esta familia. Se lo dice desde Madrid la segunda generacion de una amistad ya de decadas. Invito desde aqui a conocer la farmacia Nazareth y a quien la habita. besos