sábado, 7 de junho de 2008

A INTERMINÁVEL DROGA DO LER


(IMAGEM RETIRADA DO BLOGUE "OLHAR DIREITO")


Era Dezembro de Natal.
Cheguei a casa, estrondosamente bati a porta e tu…lias;
Beijei-te, fiz-te uma festa no cabelo e tu…lias;
Puxei-te p’ra cama, deitámo-nos e tu…lias;
Fizeste amor, sem ardor, ora gemias, ora…lias;
Chorei, adormeci, sonhei e tu…lias;
Levantei-me, saí, fui ao médico e tu…lias;
Com a pressa, deixei a porta aberta e tu…lias;
Um amigo do alheio, entrou, à vontade surripiou e tu…lias;
Voltei. A menina estridentemente chorou e tu…lias;
Quis deitá-la, não tinha berço e tu…lias;
Quis deitar-me, não tinha cama e tu…lias;
Chorei, gritei, implorei e tu…lias;
Bati-te com o meu desgosto, ameacei deixar-te e tu…lias;
Lavada em lágrimas, parti e tu…lias;
Para conciliar, foste ao juiz e, no gabinete, tu…lias;
Pelo meritíssimo, foste interpelado, não respondeste, e tu…lias;
Separamo-nos, despedi-me, disse adeus e tu…lias;
Sozinho, sofrendo, bebendo a dor com lágrimas e tu…lias;
Abatido, não comias, adoeceste e tu…lias;
Trôpego, mal vias, submisso e tu…lias;
Foi-se o sol, veio a noite e…não lias;
Ao vigário, em último desejo, num sussurro, respondeste: “eu lia!”;
Morreste, no caixão, em forma de livro,…não lias;
Em espírito, na hora do juízo final,…não lias;
Sem complacência, foste condenado ao inferno e…não lias;
“Qual o seu último desejo?”-Inquiriu o espectro do tridente.
Num sussurro, respondeste: “Queria que a minha mulher fosse um livro!”.

Sem comentários: