segunda-feira, 26 de maio de 2008

HISTÓRIAS DA MINHA ALDEIA: O TOINO DA LOJA (1)



(A "VENDA" DO SENHOR ANTÓNIO, ONDE AINDA É POSSÍVEL VER A PLACA DE TELEFONE E A CAIXA DE CORREIO)


(UMA DAS MUITAS CASAS DECRÉPITAS -ESTA DO EXTINTO DANIEL MOREIRA- AGORA À VENDA E QUE FORAM PROPRIEDADE DE ABASTADOS LAVRADORES)


    Corria o ano de 1960, tinha eu então 4 anos, quando fui morar com os meus pais para uma pequena aldeola entre a Mealhada e o Luso. Barrô, nesses tempos idos, era uma aldeia igual a tantas outras do Portugal pobre, esconso e atrasado dessa época. Tinha uma riqueza natural que embora a tornasse diferente, directamente não lhe trazia grandes benesses: a sua argila cinzenta mesclada de tons colorados, de elevada qualidade, extraída das entranhas da terra por potentes caterpillars, que diariamente iam rasgando as encostas à volta da povoação. Este barro invulgar deu o nome à aldeia. Era de uma maleabilidade fora do comum, lindo e de mil cores, onde predominava o cinzento, que dava gosto apertar entre os dedos. Este barro alimentava duas fábricas cerâmicas –hoje desaparecidas e com os edifícios em ruínas- de telha e tijolo, ao cimo do lugar. Apesar de alguma importância industrial, para além de dar alguns escassos empregos aos autóctones, pouco influía no marasmo económico desta pequena localidade intrinsecamente rural.

Por entre um casario pobre, onde a única manifestação de vida era um fio ténue de fumo saído das chaminés. A meio do lugar, como baluarte entre um homem ambicioso e um Deus desinteressado e misericordioso, ficava a capela, que normalmente só era aberta no dia da festa anual, em honra do mártir São Sebastião, ou então quando morria alguém. Era aqui, no largo, que os muitos putos, a “cachopada”, numa algazarra infernal, jogavam ao pião, ao botão e ao lencinho. Mais ao cimo, seguindo em caminho de terra batida, sulcados pelos camiões de transporte de barro, a “venda” do “senhor António da loja”. Em grau de importância estatutária, a seguir aos quatro maiores lavradores latifundiários que davam emprego no amanho da terra à maioria da população, o comerciante de vinhos e mercearias vinha a seguir. Desde os fósforos, ao arroz, ao açúcar amarelo, até ao papel de fantasia recortado para colocar nas "cantareiras" da cozinha, tudo era inscrito no grande livro de débitos. Entre o “deve” e o “haver”, cuja primeira coluna era extensa, estava ali a história do lugarejo. O senhor António, para além de bom amanuense, era respeitado pela sua idoneidade e sobretudo pela obrigatória concessão de crédito popular. Com o tempo, com a mudança dos costumes e melhor distribuição da riqueza, estabelecimento e homem, como gémeos siameses, foram perdendo importância. Praticamente, o primeiro só subsiste pelo amor e apego do segundo. Este, o companheiro e dono, hoje é simplesmente conhecido pelo “Toino da loja”. Alto, de bom porte, cabelo penteado à Errol Flynn, ninguém lhe dá a idade que realmente tem. O seu rosto, quase sem rugas, divido entre um ar de menino e a necessária contenção de um sorriso -não vá uma rasgada manifestação de júbilo parecer vulnerável e dar azo a um abuso de confiança por parte do cliente. Falar com este septuagenário é um gosto. De memória fresca, recorda toda a história da aldeia, nas últimas cinco décadas. Relembra os idos anos de 1950, quando, e apesar de estar estabelecido numa aldeia rural e essencialmente vinícola, num mês, na sua taberna, chegava a vender 25 almudes de vinho (500 litros), contra apenas uma grade de cerveja. Este consumo era feito sobretudo ao domingo. Em frente à sua loja, na rua principal, logo a seguir ao almoço, começavam a aparecer os grandes campeões, e também adversários, da malha ou fito, como também era conhecido este jogo na povoação. Quando chovia passavam para o interior, e, em volta de um pipo voltado ao contrário, guerreavam-se numa cartada, no jogo da sueca. O senhor António relembra a sã camaradagem de alguns jogadores já desaparecidos do mundo dos vivos: o “Zé Grande”, o Daniel “Carteiro”, o Albino “Cantoneiro”, o Daniel “Catrixo”. Entre outros, que ainda estão entre nós, recorda um grande campeão: o “Toino dos ovos”. 

Nesse tempo, a loja do senhor António era uma espécie de montra tecnológica implantada numa terra profundamente mecânica. Era lá que se ouviam as notícias na telefonia. Foi lá que se viu a primeira caixa que viria a revolucionar o mundo, a televisão. Por volta de 1957, poucos meses passados da primeira emissão da RTP, desde a Feira Popular de Lisboa, em 1956, este comerciante, ao passar na Praça do Comércio, em Coimbra, reparou num grande aglomerado de pessoas em frente a uma montra de electrodomésticos. Aproximando-se, reparou que todos olhavam para a caixa mágica. Com um elevado faro para o negócio, imediatamente viu ali uma oportunidade. No dia seguinte, a televisão entrava oficialmente em Barrô pela mão do senhor António. Foi colocada nas traseiras do estabelecimento, num armazém rudimentar. Colocou umas tábuas de pinho corridas e pronto! Estava inaugurado o primeiro animatógrafo do pequeno burgo, contra o pagamento de cinco tostões. 

Hoje, o “Toino da loja”, como é conhecido com carinho, olha em volta e, embrenhado numa saudade, que é quase palpável nos seus olhos embaciados, o que vê em volta é um casario em ruínas. Muitas daquelas casas, carregadas de história, com placa de “vendo”. Já quase não ouve um galo a cantar, um boi a mugir, um porco a grunhir, nem o balir das muitas ovelhas de outrora. Já não há crianças no Largo da Capela a brincar. Desapareceram os ruídos das suas tropelias. Para além das paredes a reclamarem uma pintura, o que se avistam, de vez em quando, são uns quantos velhos sorumbáticos, carregados de tristeza, encostados às esquinas. De meia em meia hora, o relógio da torre sineira lá quebra a monotonia. Fora das “Ave-marias”, o silêncio, como manto diáfano, tomou conta da aldeia.


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