sábado, 27 de agosto de 2016

A BICICLETA MAIS FOTOGRAFADA DE PORTUGAL





Segundo uma fonte pouco credível ligada à autarquia, tudo indica que está em marcha a candidatura a património local da bicicleta às cores estacionada no Largo da Freiria, junto ao estabelecimento de velharias, O Encanto da Freiria. A seguir à foto da Universidade, este velocípede de duas rodas é a imagem mais fotografada e levada para o estrangeiro.
Segundo o tipo que pintou a pedaleira -que, por acaso, conheço bem-, “o modelo original pertence ao Celso Loureiro, “O homem da bicicleta às cores”. Como ele não quis vender o espécime, como é óbvio, recriámos uma parecida. Não estávamos era à espera de um sucesso tão avassalador. Já recebemos um email do Obama (o presidente dos Staites) a marcar vez para tirar uma self junto do icónico instrumento. 
Também Françoi Hollande, presidente de França, já nos fez chegar o pedido para, logo que passe a onda do “burquini”, vir posar junto do símbolo ciclistico. Do Costa, primeiro-ministro português, ainda não sabemos se virá. Também por parte de Manuel Machado, presidente da Câmara Municipal de Coimbra, não sabemos se estará interessado num retrato. Provavelmente não, sobretudo, tendo em conta que ele não vai à bola com um gajo que está estabelecido no pitoresco largo. Para além disso, santos da casa não fazem milagres, você sabe, não é?”

sexta-feira, 26 de agosto de 2016

CHEGUEI AOS "SE SENTA"

(Imagem de Leonardo Braga Pinheiro)






Comemoro hoje sessenta anos, desde o dia em que nasci. Em boa verdade, já sou mais velho. Isto é, com mais uns, não sei quantos, meses. Desde muito cedo que me habituei a ouvir a minha mãe afirmar que me tinha registado “já fora do prazo” legal para o fazer. Imagino que teria nascido em casa com o apoio de uma parteira. Por estranho que pareça, quando o deveria ter feito, nunca me preocupei em interrogar qual a data verdadeira do meu nascimento. Só há cerca de uma dezena de anos, quando me quiseram realizar o designado “mapa astral” e me perguntaram a data e hora do nascimento, tomei noção da minha incapacidade. Ainda tentei saber alguma coisa junto da minha progenitora, porém já era tarde. Como estava já um pouco senil, ela já não conseguiu lembrar-se. Não é que esta ignorância tenha uma consequência por aí além, a não ser, por exemplo, quando leio -raramente, porque não acredito em premonições- a interpretação dos signos já sei que o melhor é ler os correspondentes “Caranguejo”, “Leão” e “Virgem” -o problema é a destrinça porque, na base astrológica, me identifico com os três. Sei também, pela data oficial de registo, que nasci no Dia Mundial do Cão, o que, em extrapolação, sendo este animal o amigo mais fiel do homem, se não me confere qualidades especiais, também não mas retira.
Depois deste introito, dizia eu então que fiz hoje 60 anos. Estou contente? Estou triste? Ou nem uma coisa nem outra? O que sei é que fisicamente sou mais velho do que sinto mentalmente. Apesar disso, contrariando outros tempos, antes de me lançar a um novo desafio penso uma, duas, três vezes. A idade tornou-me mais realista e menos idealista. Os sonhos, como pano cru lavado em água fumegante, encolheram e já só aspiro a ter saúde. Tornei-me convicto, por vezes teimoso aborrecido, como se estivesse certo de que o mundo não mudará nunca.
Esqueço facilmente onde deixei as chaves e, como cão em torno do rabo, procuro em vão, voltas e mais voltas, para acabar a verificar que estavam onde não pensava estarem.
Como milagre da Senhora do Ó, a minha barriga teima em crescer, mesmo que eu só ingira pão e água.
Passei a ler diariamente a página da necrologia dos vespertinos locais, provavelmente, em busca do meu retrato acompanhado com um pequeno historial.
Tenho de mudar. Cheguei aos “se senta” -o transpor da porta do estádio da contemplação. A partir de aqui, mais que certo, passarei a olhar o pôr-do-sol, o mar, a Lua, as estrelas com outros olhos. Já não me interessa o movimento frenético, mas antes a sua presença omnipotente. Deixaram de ser uma moldura na existência efémera para passarem a ser o símbolo do belo, o paradigma máximo da beleza perene.
Provavelmente, vou dar-me conta de que para ser feliz precisarei de cada vez menos, de pouco, de nada. Pressinto de que, de agora em diante, vou caminhar pela estrada e tomar mais atenção às pegadas de quem passou por ali antes de mim.
Em vez de correr os dias ouvindo vagamente o chilrear dos passarinhos, sempre que possa, vou sentar-me no banco do jardim público e vou apreciar cada momento, cada movimento das aves.
Quando pisar uma folha, seca e amarelecida, no asfalto negro e duro vou imaginar o seu outrora verde viçoso que já foi.
Vou ouvir a chuva na vidraça e relembrar a vida que eu percorri sem quase dar por isso. O vento ameaçador, a uivar no recanto do beiral, parecer-me-á notas de poesia intemporal e levar-me-á a escrever versos rimados e a compor canções em acordes já ouvidos.
Em vez de fazer perguntas no ruído ensurdecedor, em que ninguém me escuta, vou procurar respostas no silêncio avassalador e envolvente.
Em balanço existencial, mais que certo, vou dar por mim a arrepender-me por coisas que fiz mal feitas, mas de pouco valerá a pena, e tentar ser melhor, sobretudo, remediando em situações futuras.
Quando, à noite, me deitar e não conseguir dormir a tentar rebobinar o filme da minha vida, aceitando tudo o que ela me deu de melhor e pior, vou ser complacente com os meus erros praticados. Já nada posso fazer para os evitar.
Os “se senta” são um marco, uma fronteira, um entardecer que divide o dia e o crepúsculo, o resto da nossa vida.
Mesmo não sendo religioso, vou agradecer cada dia, como obra e graça do divino. De aqui para a frente, tenho a certeza, nada irá ser igual. Para meu bem, espero que assim seja. 
Muito obrigado a todos quantos me bafejaram com os parabéns de amizade e carinho.

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

BOM DIA, PESSOAL...

AMANHÃ HÁ FADOS NOS RECANTOS DA BAIXA



NOITE DO FADO

A Agência para a Promoção da Baixa de Coimbra (APBC) preparou para os meses de verão uma programação diversificada na Baixa de Coimbra, com Noites Temáticas. Estas  realizam-se na ultima sexta-feira de cada mês ( 24 de Junho, 29 de Julho, 26 de Agosto e 30 de Setembro), sendo  a pretensão   da APBC  que o comércio se mantenha aberto ao público até às 24h00 e que existam outros acontecimentos complementares à animação de verão da Câmara Municipal de Coimbra, que tragam público até à Baixa de Coimbra.
A primeira destas Noites realizou-se a 29 de Junho com o 239 Enigma Challenge, com a realização de diversos enigmas pelas lojas da Baixa da Cidade, a segunda foi a reedição da noite de Dj´s com diversas sonoridades a invadir as ruas da Baixa.

Nesta terceira edição das Noites Temáticas que se realiza no próximo dia 26 de Agosto a APBC realiza  mais uma edição das Noites Temáticas onde o tema é o FADO de COIMBRA e para a qual conta com o apoio  da Câmara Municipal de Coimbra, Fado ao Centro, àCapella e Café Santa Cruz.

O Convite lançado para esta noite é para que os visitantes venham calcorrear a Baixa de Coimbra e para desfrutar de actuações de rua de vários grupos de Fado de Coimbra.
A cada esquina um Fado!

As actuações dos grupos de fados das três entidades (Fado ao Centro, àCapella e Café Santa Cruz) foram programadas por forma a permitir aos visitantes a realização de dois percursos que podem naturalmente ser complementados entre si de acordo com o interesse de cada pessoa:
Percurso  I
Largo da Freiria - 21h30
Largo do Paço de Conde - 22h00
Escadas de Santiago - 22h30 - 23h10

Percurso II
Escadas de S. Bartolomeu 21h00 e 23h30
Arco de Almedina - 21h30
Escadas do Gato - 22h00
Largo do Romal - 22h30 - 23h10Imagem intercalada 1
A noite pode ainda ser aproveitada pelos turistas para conhecer o Museu Temporário de Memórias situado na  Rua Velha, perpendicular à Rua Eduardo Coelho (antiga Rua dos Sapateiros) e a exposição 'Memórias da vanguarda - 70's' do CAPC Círculo de Artes Plásticas de Coimbra.
A 30 de Setembro realizar-se-á a ultima edição destas noites temáticas com a Noite do Teatro. Não percam!


APBC - Agência para a Promoção da Baixa de Coimbra
Rua João de Ruão, 12 Arnado Business Center, piso 1, sala 3
3 000-229 Coimbra
Tel. 239 842 164  Fax. 239 840 242 Tel. 914872418
apbcoimbra@gmail.com
www.baixadecoimbra.com

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

UM COMENTÁRIO RECEBIDO SOBRE...




MÁRCIO RAMOS deixou um novo comentário na sua mensagem "BAIXA: A APBC E O DEJÁ VÙ” (2)



1 -Tenho para mim que que os comerciantes devem participar nos eventos da APBC, Agência para a Promoção da Baixa de Coimbra. Como um comerciante digno desta praça disse um dia, “os comerciantes estão cansados de um dia de trabalho, tristes, e ainda vêm para aqui a noite toda arriscando a não fazer uma venda?”. Concordo. Mas a agência devia incentivar estes comerciantes a participar. E como? A meu ver, deveria haver dois horários, o de verão e o de inverno. O da época das chuvas seria praticado, como agora está, das 9 as 19h00, com ou sem pausas para almoço. As interrupções seriam da responsabilidade do comerciante. No horário de verão, com bom tempo e com pessoas nas ruas durante a noite a dar seu passeio, as lojas da Baixa deveriam estar abertas até mais tarde 22h00 ou 23h00. Os SMTUC, Serviços Municipalizados de Transportes Urbanos de Coimbra, deveriam também agilizar um pouco o seu horário para ir até mais tarde -ainda há pouco foi feito um estudo em que o resultado apontava para esta solução. Só assim, com outra visão, pode a Baixa combater as grandes superfícies.

2 -A exposição de “Rostos Nossos (Des)Conhecidos” foi uma ideia foi óptima, a execução péssima.
Deveremos recordar caras que muitos de nós vimos quando éramos mais novos, mas não deveria ficar por aqui. As lojas que marcaram esta zona da cidade e já desapareceram deveriam fazer parte do projecto; mostrar as transformações que esta zona teve ao longo dos anos, para que jovens como eu tomem noção de como era a Baixa e para aprendermos a não realizar atentados arquitectónicos. A Torre de Santa Cruz, que poucos tem memória dela, e tantos monumentos que desapareceram ou foram transformados, como era a Praça 8 de Maio antes da transformação, ou o “Bota Abaixo” antes de o ser.
E pergunto: porquê só a Baixa? Por que não mostrar a evolução da cidade durante as últimas quatro décadas? Ou como era a Alta antes de Salazar mandar demolir para fazer a a área universitária? São tudo memorias que merecem ser partilhadas e não ficarem armazenadas num sótão a apanhar pó.
Além das pessoas que deram vida a esta Baixa, por que também não mostrar a história universitária? Quando os estudantes, caloiros, tinham que se refugiar ao toque da cabra ou eram punidos. Ou os apregoados amores dos estudantes pelas tricanas; ou o trabalho das lavadeiras do Mondego; o historial dos doces típicos e toda cozinha regional. Tudo isto merece ser mostrado numa exposição.
3 -Mas o local escolhido para esta exposição não lembra o diabo. Primeiro, num beco, sem nenhuma indicação, num prédio antigo, abandonado e não muito acolhedor, a exposição já relatada fica muito a desejar. Embora no coração da Baixa, ficou num sítio fora dos guias turísticos -e que vergonha tinha eu se um turista levasse como memória de Coimbra aquela exposição.
Pergunto: havendo tanta loja fechada por essa Baixa fora, não seria mais sensato arrendar um desses espaços durante o período da mostra e fazer um evento mais digno? Nem que fosse para respeitar as pessoas que nele estão representadas. Em alternativa, por que não se fez a exposição no Museu da Cidade, no Edifício Chiado? Tenho para mim que este espectacular espaço, com uma situação privilegiada, é pouco utilizado para o público em geral. Por que não transformar esta mostra numa exposição permanente? Não deveremos esquecer o passado. Alguém disse um dia que um povo sem memória é um povo sem história.
4 -Para acabar, pois texto já vai longo, a APBC tenta fazer o melhor. Lamento que quando há reuniões desta agência sejam tão poucos os que aparecem, mas quando esta entidade faz algo errado sejam muitos a criticá-la. Se acham que conseguem fazer melhor candidatem-se, ou vão as reuniões. dêem ideias. Sinceramente, às vezes fico pasmado que em Coimbra hajam tantos “Velhos do Restelo”.
A Baixa não voltará a ser o que era, por culpa de muitos, inclusive de comerciantes que não souberam inovar, adaptar-se, unir-se e impor-se.
Na baixa há um mostrengo, em jeito de cancro, de seu nome “via central”. Quantos lojistas se uniram e já fizeram pressão junto da Câmara Municipal para avançar com as obras? A única coisa que vi nestes meses desde que anunciaram que a “via central” era para andar foi a colocação de andaimes e lonas com desenho dos prédios, em frente à Caixa Geral de Depósitos, estando acessíveis a qualquer marginal.
Na zona da Rua Direita há problemas de segurança, ninguém quer saber, nem mesmo os comerciantes, os que têm mais interesse. O mundo transformou-se imenso durante estes últimos anos. Não podemos ficar no passado. O futuro passa por agirmos e tentar resolver os problemas que destroem a Baixa e seu potencial. Os comerciantes devem apresentar soluções, falar a uma só voz. A APBC deve ser a sua representante, só assim, a meu ver, a Baixa terá futuro.



TEXTO RELACIONADO

MÁRCIO RAMOS deixou um novo comentário na sua mensagem: “BAIXA: A APBC E O DEJÁ VÙ" (1) 

terça-feira, 23 de agosto de 2016

“ANAVALHADO” NO LARGO DA FREIRIA JÁ TEVE ALTA HOSPITALAR






Ricardo Fernandes Alves, o nosso vizinho que no dia 11 do corrente foi vítima de esfaqueamento por parte de um morador do mesmo prédio onde reside, no Largo da Freiria, na Baixa, teve alta hospitalar ontem à noite e, felizmente, já calcorreia as pedras da calçada desta área milenar.
Levemente combalido, como é normal depois de uma convalescença hospitalar, com as palavras a soltarem-se em turbilhão, mostou-se muito agradecido a todos quanto, incluindo os vizinhos, que se esforçaram para que o desenlace da tragédia fosse o de menor custo, o Ricardo estava feliz por ter ultrapassado o limbo, a terra de ninguém entre a vida e a morte, e enfatizou que espera nunca mais passar por experiência igual. Nós também fazemos votos para que tal não volte a acontecer.

E O AGRESSOR, COMO É QUE ESTÁ?

Como já tive ocasião de escrever, Carlos Leonel Gonçalves, o agressor, está a aguardar o julgamento em prisão preventiva num estabelecimento prisional numa cidade próxima de Coimbra.
Sem aparentemente denotar arrependimento, continua a verberar o mesmo depoimento que levou ao desfecho do incidente criminal. Embora sem estabelecer relação causa-efeito, confirmou que, de facto, há muito tempo, não tomava medicação para a esquizofrenia, patologia que sofre desde o final da adolescência.

UMA NAVALHA EM CADA ESQUINA?

Repetindo o que escrevi na descrição da eminente tragédia, que quase foi fatal ao jovem de vinte anos, Ricardo Alves, quer o agressor, que reside no Largo da Freira há cerca de três anos, quer o agredido, que mora no mesmo local há cerca de um ano, sempre foram pessoas sociáveis, de respeito mútuo, e nunca denotaram aos confinantes qualquer tensão existe entre ambos.
Sem, de modo nenhum, querer desvalorizar a gravidade da “tentativa de homicídio”, porque falei com a assistente social que acompanha Carlos Leonel sei que este não tomava a medicação há muito tempo. Quando alertado para o facto argumentava que “já estava bom e não precisava de ingerir medicamentos que lhe davam cabo do estômago”, confidenciou-me a técnica de serviço social.
Ora, tendo em conta a consequência -apesar de tudo, felizmente, com mal menor- do caso esporádico e pontual, em especulação, poderemos interrogar: quantas pessoas, na mesma situação, isto é sem medicação assistida, se arrastam pelo Centro Histórico? Sem pretender ser alarmista, quem considerar estar a salvo de uma qualquer agressão gratuita pode, por vias de facto, não estar assim tão descansado.
Sabendo nós que a maioria destas pessoas que recebem o RSI, Rendimento Social de Inserção, são incapazes de se administrarem e logo no segundo dia, depois de receberem o subsídio, já estão sem dinheiro, e juntando o facto de estarem entregues a si mesmo na medicação (que deveriam tomar e não tomam) não fará sentido ser criada a figura de um tutor para os acompanhar? Embora se calcule o atrofiamento do serviço, com demasiados utentes à sua responsabilidade, poderia perfeitamente ser a assistente social que os acompanham.
A bem de um futuro que, através da prevenção, se espera melhor, valerá a pena pensar nisto?

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

UM COMENTÁRIO RECEBIDO SOBRE... E UMA RESPOSTA




Tétisq deixou um novo comentário na sua mensagem "EDITORIAL:VARRER OS TOXICODEPENDENTES PARA DEBAIXO...":


São questões interessantes e pertinentes, mas não comungo daquilo que me parece uma excessiva desculpabilização desses indivíduos, 'doentes sociais'. Se cometem crimes devem ser punidos, se uns consomem outros traficam pelo que será importante terminar com esse tipo de negócio para fazer dispersar essa comunidade.
No final dos anos 80 a minha vila ocupava o lugar de maior centro de consumo e tráfico de droga da zona Norte. Desde os 6 anos que convivo com a imagem de indivíduos a injectarem-se, as seringas abandonadas eram frequentes no caminho da escola e sendo que nessa altura havia um 'entendimento' da comunidade toxicodependente de que era importante viciar os mais novos, foi nessa altura que comecei a recusar os 'doces' que me tentavam impingir no portão da escola.

Cresci a ter medo de circular nas ruas da minha vila, e nas ruas do Porto, e quando vim para Coimbra fiquei feliz porque me sentia segura e podia gabar-me aos amigos de que em na cidade dos estudantes andava na rua sozinha a qualquer hora, mesmo que fosse noite. Mas, agora. até de dia sinto medo e nojo quando ando nas ruas da Baixa.
Tenho medo porque já assisti a discussões entre indivíduos desse grupo onde empunhavam facas, que não me ameaçando directamente me podiam prejudicar.
Tenho medo e nojo porque os animais, principalmente cães, que estes indivíduos trazem com eles parecem uma ameaça à saúde publica. E, no fundo, tenho medo porque me cruzo mais vezes com eles enquanto praticam ilícitos do que com patrulhamento policial.
Tirando o policia que fica em frente ao Banco de Portugal como se fosse um meco, já que não pode sair de lá, raramente vejo policia nas ruas da Baixa.
Acho que as várias entidades, Câmara Municipal, Cáritas, associação comercial e autoridades deviam chegar a um acordo para que o patrulhamento aumente e todos se sintam mais seguros. Os turistas que já vi muitas vezes desistir de entrar nos becos da Baixa por medo e que deixaram certamente de consumir nas lojas aí situadas, os cidadãos que assistem às cenas que descrevi, e os trabalhadores que têm nessa zona o seu local de trabalho, desde “call center NOS, Pingo Doce, Continente e diversas estruturas cujos trabalhadores maioritariamente jovens, começam a ter medo de estacionar ou simplesmente apanhar um autocarro ali perto.
Nem na minha vila nem nas zonas mais problemáticas do Porto situações semelhantes a esta se resolveram sem o aumento do policiamento. É imperativo eliminar o tráfico para evitar outros pequenos delitos que por ali se repetem e perpetuam.





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RESPOSTA DO EDITOR


Muito obrigada, Té Tisq, por ter respondido ao meu repto de uma forma tão clara.
Começo por fazer uma ressalva em jeito de introdução. Pode até parecer que sou um defensor acérrimo da liberalização de drogas e de salas de chuto medicamente assistidas. Puro engano. Defendo estes instrumentos, legalizados por lei da Assembleia da República, como último recurso, que pode ser experimental, numa batalha (contra a droga) declaradamente perdida por todos, pela sociedade, pelas polícias, pelos governos, que fazem o que podem para manter a situação sob controle, mas que já deu para ver que com o actual “status quo”, situacionismo, não se sai do mesmo lugar, se é que não estamos a piorar. Continuamos a assistir, impávidos e serenos, à destruição de famílias, com mortes associadas -eu já passei e continuo a passar por essa experiência. Tenho vários familiares com este problema. Já vi desaparecer jovens na primavera da vida que gostava muito.
O que se passa é que, colectivamente, fizemos do consumo e tráfico de droga um anátema, uma execração, uma maldição contrária ao modus vivendi societário, na forma como entendemos a perfeição na convivência humana, e, fugindo, não procuramos enfrentar o cancro. Sobretudo o consumo de droga é um comportamento que, quer pelos envolvidos directamente, os viciados, quer pela família, uns e outros tentam esconder. Sem enfrentar a consequência de frente. Pela segunda, a família, há um retrato comum: os pais, em face da adversidade não se unem em bloco, dividem-se, e um deles passa a considerar o filho como doente, “coitadinho do menino”, alega-se em repetido, e a manipulação passa a ser uma constante. Esta super-protecção de uma das partes leva à desvalorização da autoridade paternal do outro. Por seu lado, o protegido cada vez se sente mais forte e vai manipulando cada um dos entes a seu bel-prazer e tendo sempre em conta a sua conveniência egoísta e mesquinha. O resultado desta divisão é o esboroar das relações familiares e o desmantelamento da família. É um erro assacar culpas na educação.
O que deveria acontecer (e na maioria não acontece) deveria ser a família unir-se em bloco e impor regras que passam pelo tratamento compulsivo do afectado. Sem cedências, o ultimato deve ser uma escolha: ou te tratas ou vais à tua vida, mas sozinho. É fácil lidar com esta constatação? Claro que não -só quem passa por isso sabe do que escrevo. Logo aquando da descoberta de consumo os pais deveriam assumir friamente que é uma luta de vida ou de morte. A perda do ente querido é uma inevitabilidade. Se nada se fizer e se manter a situação, o mais certo, mais tarde ou mais cedo, é, no caso das leves, ele acabar com os neurónios queimados, ou estendido com uma overdose, no caso das drogas pesadas. Se a pé juntos se optar pelo tratamento e o viciado não aceitar, o melhor, antes que destrua tudo em redor, é obrigá-lo a ir -repito, é muito difícil, mais fácil é escrever, mas é a única possibilidade dos primogénitos se manterem juntos.
O consumo de droga é uma institucionalizada condenação à morte. Quando não percorremos os carreiros desse mundo terrível, a forma como lidamos com o assunto, alheando-se da solução, na generalidade, entendemos que não é um problema nosso. Pensamos que só acontece aos outros. Com o espectáculo público de injecções na veia acontece a mesma coisa: só nos tira o sono quando verificamos que está junto à nossa porta. Então, quando assim é, gritamos, estrebuchamos que nem peixe fora de água.

MAS PORQUE É QUE TUDO CONTINUA IGUAL?

É uma pergunta sem resposta objectiva. No entanto, tenho para mim que tudo continua na mesma e igual à lesma porque, por um lado, como disse em cima, as famílias preferem enterrar a cabeça na areia, não dando a cara, ao invés de se procurarem soluções, exigindo dos governos nacionais um novo testar do problema do consumo e tráfico de droga, por outro, há demasiados interesses envolvidos nesta questão. Sem ofensa para ninguém em especial, desde as instituições ligadas à prevenção e combate à droga, passando pelo lobi farmacêutico, até aos cartéis, que envolvem governos internacionais e personalidades ditas intocáveis, ninguém está interessado em alterar o actual panorama.

MAS, VAMOS AO COMENTÁRIO OU NÃO?

E finalmente vamos às suas questões.

São questões interessantes e pertinentes, mas não comungo daquilo que me parece uma excessiva desculpabilização desses indivíduos, 'doentes sociais'. Se cometem crimes devem ser punidos, se uns consomem outros traficam pelo que será importante terminar com esse tipo de negócio para fazer dispersar essa comunidade.


A desculpabilização de que você alude, a meu ver, surge a jusante como um benefício em resultado da incapacidade (de todos) de não se ter actuado preventivamente a montante. Isto é, logo na detecção do problema dever-se-ia actuar em conformidade, com mão forte e o Estado chamar a si a terapêutica, o tratamento de doentes. Como se prefere actuar depois do mal-feito, de certo modo, é como se, pacificamente, aceitasse a tese de Rosseau, século XVIII, de que todos nascemos puros e bons e é a sociedade que nos conspurca, tornando-nos selvagens.
Se atentarmos, a justiça é o braço pretensamente justo que pune os ilícitos em nome da sociedade. E será tão justa tanto quanto, pela sentença ou acórdão, consiga, ao mesmo tempo e num equilíbrio precário, satisfazer os vitimizados e os agressores. A tal paz social, de que se fala, assenta e é conseguida mais nesta premissa de ressarcimento individual do que pela restrição de liberdade ou custo monetário.
No caso a que alude, na punição de tráfico e consequência do consumo, como vemos, está logo viciado à partida e a justiça, por ser parte da parte (Estado), utiliza um paternalismo (talvez) exacerbado na análise e conclusão do processo.
Poderia ser diferente? Penso que sim se a responsabilização começasse logo na educação/formação e não apenas na idade da alegada tomada de consciência dos actos, seguindo o Direito Romano, de há mais de dois mil anos, como se uma pessoa de 14/16 anos tivesse hoje a mesma mentalidade de há milhares de anos e não percepcionasse a consequência de modo diferente, límpido e calculista.


Cresci a ter medo de circular nas ruas da minha vila, e nas ruas do Porto, e quando vim para Coimbra fiquei feliz porque me sentia segura e podia gabar-me aos amigos de que em na cidade dos estudantes andava na rua sozinha a qualquer hora, mesmo que fosse noite. Mas, agora. até de dia sinto medo e nojo quando ando nas ruas da Baixa.”

Com todo o respeito pela sua opinião, retirando o pequeno furto, aqui e ali com assaltos à propriedade, e escaramuças próprias de uma cidade média, Coimbra, e sobretudo a Baixa, que é a zona de que falamos, é garantidamente segura. Para fundamentar a minha afirmação, trabalho e resido na Baixa. Mais, por vezes, percorro estas ruas noite dentro e nunca tive qualquer problema. Acredito que, pela desertificação a que a área está votada, sobretudo durante a noite, o medo é mais formal, psicológico, que efectivo, material.

Tenho medo porque já assisti a discussões entre indivíduos desse grupo onde empunhavam facas que não me ameaçando directamente me podiam prejudicar.
Tenho medo e nojo porque os animais, principalmente cães, que estes indivíduos trazem com eles parecem uma ameaça à saúde publica. E, no fundo, tenho medo porque me cruzo mais vezes com eles enquanto praticam ilícitos do que com patrulhamento policial.
Tirando o policia que fica em frente ao Banco de Portugal como se fosse um meco, já que não pode sair de lá, raramente vejo policia nas ruas da Baixa.”

Tanto quanto julgo saber, o grupo a que se refere costuma estar “estacionado” ora na Rua da Sofia ora nas artérias largas. Não quero entrar em desculpabilização gratuita mas, no caso, creio, será mais de “vadios sem eira nem beira” onde o álcool jorra de garrafa para garganta do que propriamente os “drogados” com substâncias opiáceas de que falamos. Se por um lado concordo que a sua exposição pública não é muito gratificante para a Baixa, por outro, sejamos justos, as polícias pouco podem fazer -pelo direito constitucional de liberdade de circulação.

Acho que as várias entidades, Câmara Municipal, Cáritas, associação comercial e autoridades deviam chegar a um acordo para que o patrulhamento aumente e todos se sintam mais seguros. Os turistas que já vi muitas vezes desistir de entrar nos becos da Baixa por medo e que deixaram certamente de consumir nas lojas aí situadas, os cidadãos que assistem às cenas que descrevi, e os trabalhadores que têm nessa zona o seu local de trabalho, desde “call center NOS, Pingo Doce, Continente e diversas estruturas cujos trabalhadores maioritariamente jovens, começam a ter medo de estacionar ou simplesmente apanhar um autocarro ali perto.”

Concordo plenamente consigo. Apesar de não considerar a insegurança preocupante na Baixa, defendo que o policiamento a pé, durante a noite e não só à luz do dia, deveria ser uma obrigação da PSP.

Nem na minha vila nem nas zonas mais problemáticas do Porto situações semelhantes a esta se resolveram sem o aumento do policiamento. É imperativo eliminar o tráfico para evitar outros pequenos delitos que por ali se repetem e perpetuam.”


Mais uma vez concordo consigo. Por isso mesmo continuo a dissertar sobre este assunto e até, quase a parecer provocação, me dou ao trabalho de escrever este lençol.