segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

sábado, 10 de fevereiro de 2018

BAIXA: NA INDIGÊNCIA TAMBÉM SE DISCRIMINA





Foi há cerca de um ano que deixei de ver o Cadaxo. A Praça do Comércio era o seu pequeno mundo. Rodeado de pombos, a quem distribuía migalhas certamente trazidas da Cozinha Económica, sentado num banco de madeira ou nas escadas da Igreja de São Tiago, era ali o seu quartel-general. Apareceu por cá há volta de vinte anos. Como as andorinhas, de tempos-a-tempos, partia em busca de outro clima mais quente, ou para fazer uma desintoxicação ao álcool. Retornava sempre ao ponto de partida. Era um sem-abrigo. Um rosto nosso (des)conhecido que vagueava entre nós. Sempre com histórias mirabolantes para contar. Cada um com um percurso de vida impressionante. Numa sina previamente anunciada, quase sempre morrem sozinhos.
Desta vez o Joaquim Cadaxo não voltou. O que lhe teria acontecido? Teria morrido? Se foi assim, até na morte se cumpriu a tradição: ou seja, se em vida foi um pária, para não variar, na hora do último acto de corpo presente ter-se-á seguido um enterro no maior anonimato. Não é a primeira que escrevo sobre a profunda discriminação que os indigentes, os acantonados da vida sem família, deveriam merecer algum respeito por parte das autoridades. No mínimo, tinham obrigação de informar a comunidade do seu falecimento. E para isso, tal como os ditos “normalizados”, era fazer anunciar o seu desaparecimento na sua área de convivência. A falta de informação de pessoas próximas é redundante e marca toda a diferença no seu sepultamento. Havendo conhecimento do falecimento, qualquer amigo ou conhecido pode contactar uma agência funerária e accionar uma cerimónia fúnebre com dignidade para o finado. Sendo o morto pensionista, a Segurança Social suporta o custo de um funeral mínimo. Tanto quanto julgo saber, sempre que um destes desprezados da vida se vai e não aparece nenhum familiar ou outro, o hospital -quando eles se finalizam lá- com uma cerimónia simplíssima, encarrega-se das exéquias. Pode até parecer que o que estou a escrever não interessa nada. Pensarão alguns, afinal se em vida ninguém lhe ligou patavina, o que importa o acto formal na morte? De facto, até porque é muito mais cómodo, poderemos todos pensar assim. Acontece que, a meu ver, para estas pessoas que em vida foram abandonadas, deveria haver por parte das autoridades um reforço da dignidade no último acto inter-vivos. Se a Constituição da República Portuguesa (CRP) prescreve que são “Tarefas Fundamentais do Estado” “Promover o bem-estar e a qualidade de vida do povo e a igualdade real entre os portugueses, bem como a efectivação dos direitos económicos, sociais, culturais e ambientais, mediante a transformação e modernização das estruturas económicas e sociais” -Artigo 9º, alínea d) da CRP-, porque esquecem estas pessoas? Bem sabemos que, na sua curta existência terrena, é muito difícil orientar estes sujeitos, mas, ao menos na morte, atribuamos-lhe a perdida dignidade de pessoa humana.

CURIOSO, ATÉ NA MISÉRIA HÁ DESIGUALDADE

Numa crónica assinada por alguém que não recordo o nome, na semana passada, em todos os jornais locais, foi defendida a ideia peregrina de fazer perpetuar a memória do “Carlitos popó” no Largo das Ameias, na Baixa. Para quem não sabe, o “Carlitos” foi uma personagem típica, carismática, com deficiência, uma rosa brava num jardim humano formatizado por iguais, que durante mais de meio-século percorreu as pedras milenares da zona histórica. Era também presença assídua na Procissão da Rainha Santa.
Como ressalva, sempre considerei o “Carlitos” como pessoa em vida e, tal como realizo sempre com outros que conheça e que andem por aqui, faço sempre questão de estar presente no seu funeral. Instituo isto porque entendo que se, enquanto são vivos, lhe dou palmadinhas nas costas, na hora da sua derradeira partida devo ter a mesma prossecução comportamental. Mas, sublinho, nesta homenagem final, tudo acaba aqui.
Quero dizer o quê com este arrazoado? Que, com todo o respeito pelas iniciativas particulares de cada um, não me convidem a colaborar em exageros. E a cidade é peculiar em excessos a homenagear “cromos”. Relembro que o “Taxeira”, um figurão popular entre a academia nas décadas anteriores a 1980, está memoriado numa rua da cidade. Posso não ser unânime, mas ninguém me tira da cabeça que estamos no campo do absurdo.
Portanto, pelo exposto, está de ver, numa desigualdade gritante para uns vai tudo, para outros, mais anónimos e que não caíram nas boas graças de muitos, nem um funeral nobre têm direito.
Vale a pena pensar nisto?

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

BAIXA: JÁ NÃO HÁ ESTRELAS NO CÉU





1 - Ontem, por volta das 18h45, numa rua estreita da Baixa, com gritos, insultos e umas palmadas misturadas em vozes femininas e masculina, ouviu-se uma grande algazarra. O que era? Um conhecido cromo destas paragens carregado de vinho e acompanhado com umas quatro mulheres a vociferarem entre si. Na discussão, não se sabe se as meninas reivindicavam a parte do homem que ainda estaria aceitável e que lhe permitia manter-se a cambalear sem ir beijar as pedras, se procuravam o lado alcoólico que o tornava vítima sem defesa. Provavelmente, temendo que no caldinho de sangue com álcool pudesse sair um serrabulho de péssima qualidade que pusesse em risco a afamada boa cozinha portuguesa que se pratica em alguns bons restaurantes da Baixa, algum qualquer vizinho telefonou à PSP. Fazendo-se transportar em automóvel, vieram três agentes passado um tempo não contabilizado pelo meu relógio. Para sorte do erário público, os perturbadores da ordem pública já tinham desaparecido. Tivemos mesmo sorte! Se os cívicos os apanhassem só iam dar despesa para a esquadra. E mais, supondo que o homem fosse considerado agressor das mulheres, por aparentemente serem a parte mais vulnerável, mais que certo, acabava por ser mandado em liberdade. Quem teria atacado as mulheres? A parte do homem que, cambaleando, ainda se mantinha de pé ou o lado do alcoolizado como uma pipa? Como está de ver, na dúvida absolve-se o réu, depois de umas horas a ser ouvido, lá vinha embora a metade de barril conjuntamente com a outra metade de cidadão. Tivemos mesmo sorte!
Isto para dizer o quê? Que, por força do abandono a que a Baixa está votada pelas autoridades, o ambiente pesado com elevado teor etílico, ao raiar do crepúsculo, é uma constante. E se há uma explosão?

2Antes de ontem, numa rua estreita desta zona antiga, com algum aparato, dando cumprimento a uma ordem do tribunal movida por uma acção executiva, na presença de dois agentes da PSP, foi arrombada a fechadura de uma loja recentemente encerrada e carregada para uma carrinha parte do que restava da sua existência material.
Isto quer dizer o quê? Que anteriormente, nas últimas décadas, nunca aconteceu? Nada disso. Aconteceu sim. Só que era a excepção e hoje, nos nossos dias, é a regra. Pela banalidade já ninguém perde um minuto a pensar em casos destes. Encerrar um estabelecimento com largos anos de história, seja de que ramo for, é a economia a funcionar?
Acontecendo coisas destas com demasiada frequência não deveria fazer pensar os membros da maioria da vereação PS –com cinco vereadores eleitos? Não deveria fazer agir a oposição no executivo? O que tem feito a Coligação Mais Coimbra (PSD/CDS-PP/MPT/PPM) -com três vereadores sem pelouro? O que tem feito o movimento Somos Coimbra -com dois vereadores eleitos, sem pelouro? O que tem feito a CDU, Coligação Democrática Unitária (PCP-PEV) -com um vereador eleito, com pelouro?
Estarão à espera que, economicamente, rebente tudo para depois intervir? Ou será que há uma intenção deliberada para deixar cair a zona? Não será verdade que quando uma área perde valor comercial e habitacional, depois, é muito mais fácil comprar quarteirões ao preço da uva mijona?

3Há uma semana, com título de primeira página nos jornais diários, foi anunciada a inscrição de uma verba de 150 mil euros para a Baixa, numa nova rubrica no nosso município: o Orçamento Participativo -instrumento que permite a participação publica em determinados projectos anunciados e muito em voga em muitas câmaras municipais do país. Seria votado na reunião desta última segunda-feira. Foi adiada a apreciação do projecto pelo executivo. Segundo o plasmado nos órgãos de informação, seriam 50 mil para projecto(s) jovem(s) e 100 mil para projecto(s) adulto(s) que poderiam ser votados pelos conimbricenses.
Mesmo antes do menino nascer, pergunta-se: tão mirradinho, tão pobrezinho, tão sem jeito, o que se pretende com este tiro de pólvora seca? É para entreter as massas? O que é que esta iniciativa, com tão pouca verba disponibilizada, mais própria para executar no Portugal dos pequenitos, vem ajudar a zona histórica? É isto? É tudo isto que a maioria socialista com assento no governo local tem para contribuir para a regeneração da Baixa?

4Anda por aquí uma zoada de que, no maior dos segredos, está em marcha a constituição de uma nova associação comercial em substituição da extinta ACIC, Associação Comercial e Industrial de Coimbra, em 2016. Quem está a incentivar esta criação saberá o estado de fragilidade económica do comércio? Saberá que os comerciantes, pelo esgotamento financeiro, não podem pagar quotas? Então, a ser assim, onde se vai escavar as receitas para se aguentar?
É certo que a crise associativa do comércio em Coimbra também assenta na falta de credibilidade de quem gere os destinos associativos. O que moveu quem esteve à frente destas agremiações foi sempre o interesse pessoal. As associações foram sempre o trampolim para outros voos na política, ou, não havendo lugar nesta, como em alguns casos, boas colocações remuneradas em empresas ligadas à autarquia. Por isto mesmo será muito difícil avançar na conquista de associados. Salienta-se que não quero dizer que uma associação não seja importante para a defesa da classe. Claro que é importantíssima, mas é preciso mantê-la. Não chega a boa-vontade.
O que se necessita mesmo é de uma oposição que saiba estar à altura e, como a função indica, pressione a maioria no hemiciclo para o que está acontecer à parte baixa da cidade.

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

BOM DIA, PESSOAL...

BAIXA: ECOS E RUMORES ATRAVESSAM BECOS E RUELAS






Será que estamos perante um “dejá vù”? Quando, entre
2001 e 2005, Pina Prata era vice-presidente da autarquia
liderada por Carlos Encarnação e, ao mesmo tempo,
presidente da ACIC?

Sem confirmação, no maior segredo dos deuses, está na forja a constituição de uma associação comercial que substitua a desaparecida ACIC, Associação Comercial e Industrial de Coimbra, tornada insolvente em 2016.
Os rumorejos que atravessam estas praças e pracetas centenárias não são muito claros. Dissecando os sonidos, salta à vista que é um movimento de mulheres comerciantes e encabeçada, ou pelo menos incentivada por um líder político ligado à Câmara Municipal, que, diz-se, teria disponibilizado a sede da sua agremiação para uma reunião preliminar.
A soada indica também que este é um resultado directo saído da manifestação, em 20 de Dezembro, realizada por alguns comerciantes em frente aos Paços do Concelho.
Tanto quanto se julga saber não se trata de uma guerra de sexos.

PORQUÊ TANTO SEGREDO?

Num projecto que deveria ser o mais publicitado possível, contrariando o bom-senso, está a ser cozinhado entre um “grupinho” de comerciantes mulheres, como manifesta a zoada.
Sem falar, uma pedra de um prédio centenário de uma destas quinas, pareceu dizer que, a ser assim, com estas ideias divisionistas, a ideia não irá muito longe. A ver vamos, diria outra laje próxima.

E LOGO TU, MEU CANDIDATO DA ESPERANÇA?

Num comentário arrastado e imperceptível, um outro calhau da calçada portuguesa, querendo indicar a postura do político, enfatizou: “Que pena! Tanta esperança deitada fora tão precocemente! Como é que é possível tanta aselhice? Um tiro no pé! Mas será que não pensa? Não vê que a sua função é política e não associativa?
E mais não disse!

O NABO DO EDITOR, A METER A COLHER, PERGUNTA:


Será que estamos perante um “dejá vù”? Quando, entre 2001 e 2005, Pina Prata era vice-presidente da autarquia liderada por Carlos Encarnação e, ao mesmo tempo, presidente da ACIC? Nããã... Isto são pensamentos estrambólicos de alguém que, julgando já ter visto tudo, continua a ser surpreendido numa cidade sem grandes surpresas para melhor.

UM COMENTÁRIO RECEBIDO SOBRE...

(Imagem da Web)


Anónimo deixou um novo comentário na sua mensagem "ROSTOS SEM ROSTO: A PROSTITUTA":


Sou homem, bissexual, empregado e sem vícios nefastos, ou mesmo outros.
Vivo só com um gato. Sou divorciado. E se pudesse, penso que atualmente não me importaria de refazer a minha vida com uma prostituta ou ex-prostituta. Entendo-as muito bem, e não as condeno. Olho para mim, e não sou mais do que ninguém para julgar o meu semelhante!! Sou uma pessoa muitíssimo sofrida também, e hoje apesar de ser muito alegre e sociável no meu trabalho, sou um ser solitário, e triste na realidade. Esta actividade deveria ser legalizada, e deveriam deixar de olhar estas senhoras de lado, e de uma vez! Tive um trabalho onde lidava muitas vezes com estas mulheres, e há entre elas senhoras em quem eu poderia ter confiado tudo!!! Tudo!! São genuínas! As ''normais'' foram sempre umas pessoas muito falsas! Estas nunca!!

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

BAIXA: CONVERSA DE BARBEIRO

(O senhor José Coelho numa imagem captada à cerca de cinco anos) 



Sabe, amigo Carlos, gosto muito da Baixa,
e até do vosso serviço... Foram muitos anos,
mas aqui na zona tenho tudo, até uma barbearia,
que comecei a ir e acabei por me adaptar.
A minha vida agora é feita aqui. Vou fazer o quê
à Baixa? Só para ir cortar o cabelo?
E quanto me custa o estacionamento do carro?”

Como faço habitualmente há várias décadas, hoje, por volta do meio-dia, fui cortar o cabelo à “minha barbearia” -os ricos são mesmo assim, todos têm: o “meu advogado”, o “meu contabilista”, o “meu conselheiro espiritual”, o “meu terapeuta”, o “meu gestor de conta”. “A minha barbearia” fica na entrada da Rua Martins de Carvalho -antiga Figueirinhas-, em homenagem ao fundador do jornal Conimbricense, e distingue-se de outras pelo nome de Santa Cruz.
Comigo acontece um fenómeno giro, quando estou sentado na cadeira de barbeiro -no caso uma réplica das clássicas António Pessoa-, enquanto do desbaste do cabelo, ou mantenho-me a conversar com o oficial de cabelos, a ler o jornal ou adormeço num longo sono dos (in)justos. Se não estiver ocupado é matemático: o torpor invade-me completamente. Hoje comecei a ler o jornal e, por um lado, como já tinha lido tudo, por outro, o corte ainda estava a meio, meti conversa com o técnico de Barbearia -creio que hoje são assim conhecidos estes profissionais.
Quando entrei no salão, reparei que o espaço estava muito vazio de clientes. Mentalmente recordei o tempo de há cerca de uma década, quando cinco trabalhadores, quatro homens e uma mulher, exerciam ali o seu ofício. Agora só duas pessoas se ocupam da clientela, o dono da barbearia, o senhor José Coelho, e o empregado, o senhor Carlos. Para fazer conversa, embora de certo modo já conhecesse a resposta, atirei: lembrando-me que até há cerca de uma década já aqui desempenharam a função cinco pessoas e agora, aparentemente, dois serão de mais, que premissas contribuíram para esta diminuição?
Respondeu o senhor Carlos: Como sabe, haverá vários factores, mas o principal é a saída progressiva e acentuada nos últimos tempos de pessoas da Baixa. Veja o sector bancário -por exemplo, pense aqui no antigo BES, que agora está fechado, nas largas dezenas de funcionários que ali trabalhavam. Aqui na Baixa, só nos bancos, laboravam milhares de pessoas. Agora, se calhar, uma escassa centena exerce nas dependências bancárias que ainda estão abertas. Sempre que sai daqui alguém, seja por perder o emprego ou porque foi morar para outro lado, é um sujeito que não volta mais. Para onde vai tem lá tudo, não precisa de vir cá. Nos primeiros tempos, pelo saudosismo, até pode visitar-nos, mas é sol de pouca dura. Depois desaparece de vez para nunca mais aparecer. Há dias, na zona do Alma shopping (antigo Dolce Vita) encontrei um nosso cliente que trabalhava por aqui, foi despedido e nunca mais o vi. Cumprimentámo-nos e, depois de “faladura” de circunstância, interroguei: então nunca mais pareceu por lá? E ele respondeu: “Sabe, amigo Carlos, gosto muito da Baixa, e até do vosso serviço... Foram muitos anos, mas aqui na zona tenho tudo, até uma barbearia, que comecei a ir e acabei por me adaptar. A minha vida agora é feita aqui. Vou fazer o quê à Baixa? Só para ir cortar o cabelo? E quanto me custa o estacionamento do carro? Tudo isso são factores a ponderar, entende, senhor Carlos?